LER É BOM, MAS ACHO UMA ATIVIDADE PASSIVA DEMAIS

Vejo essas naturezas desgastadas, como a do Eslen Delanogare, que ajuda muita gente, desde que paguem R$ 38 por mês, gastar toda a manhã lendo e fico estarrecido.
Porque, como diz Nietzsche:
“Cedo, ao romper do dia, no frescor, na alvorada de sua força, ler um livro — a isso chamo de vicioso!”
Falando dos eruditos que dedicam sua inteira energia a aprovar e reprovar, à crítica ao já pensado, ele escreve:
“Ele próprio já não pensa...”
E continua:
“O erudito — um décadent. Isso vi com meus olhos: naturezas dotadas, de constituição rica e livre, ‘lidas à ruína’ já aos trinta anos, apenas fósforos que se necessita riscar para que brilhem, emitam ‘pensamentos’.”
Parece até que está descrevendo o próprio Eslen.
Para mim, a leitura meramente passiva, igual à daquele simpático recantista que se jactava de ler três livros por dia, causa espanto. Não pela proeza, mas porque, com tanto tempo dedicado às palavras dos outros, sobra pouco espaço para as próprias palavras e para o próprio pensamento.
Para mim, ler deve servir à poiésis, palavra da qual também deriva poesia. Em Aristóteles, poiésis é produzir, criar, fazer surgir algo que antes não existia.
Diferentemente da práxis, que é a ação cujo fim está nela mesma.
O verdadeiro problema, portanto, não é ler, mas transformar a leitura em um fim em si mesmo, sem que ela desemboque em criação.
Para explicar essa diferença entre práxis e poiésis, nada melhor do que Paulo Leminski.
Em um documentário, ele aparece em seu apartamento, cercado de livros até o chão, enquanto datilografa em sua máquina de escrever. Explica que todos aqueles livros existem para torná-lo um poeta mais equipado para sua produção.
Ou seja: ler fornece matéria-prima; escrever é transformá-la em outra coisa.
É exatamente assim que vejo os livros.
Assimilar conceitos, adquirir mais matéria-prima para o pensamento, ampliar o vocabulário, multiplicar sinapses e conexões para pensar e escrever coisas novas, ainda que baseadas naquilo que já existe.