POSSO TE CONTAR UM SEGREDINHO MEU?

Na esquete do Porta dos Fundos, com o competente Daniel Furlan, que interpreta um professor filósofo, à moda de Clóvis ou Pondé, que participa do programa chamado Papo Fino, após ele falar sobre Kant, a apresentadora pergunta se ele pode compartilhar um segredinho com a audiência que nunca contou para ninguém.
“Segredinho?”, ele diz, soltando um sorriso serelepe no canto da boca, e solta a pérola: consegue tocar a parte final do sistema digestivo, de uma sigla de duas letras, com a própria língua, graças à sua prática de yoga e, claro, ao tamanho da língua, causando perplexidade na entrevistadora.
“No sentido metafórico, né?”, pergunta ela.
“Não, físico, mesmo”, diz ele com toda naturalidade.
E quais segredinhos dessa estirpe os amigos recantistas não devem ter? Os esqueletos no armário, como costumam dizer, os quais não ousam confessar nem para a própria consciência.
A moral só é moral quando você faz as coisas mesmo sem ninguém estar vendo. Quando se tem a capacidade de agir diferentemente.
Platão, no diálogo sobre Glauco, seu irmão, conta a história de Giges, um pastor que encontra um anel que o torna invisível e que, de uma pessoa pacata, com esse poder em mãos, passa a cometer atrocidades, desde assassinatos e estupros até tomar o poder.
Portanto, sua moralidade era totalmente falsa. Era só incapacidade.
É por isso que tudo se decide, na vida, nas tarefas que se fazem quando ninguém está vendo.
Por isso é tão difícil fazer dieta, treinar, ler, escrever, fazer academia, porque são atividades que você faz para você mesmo, sem público.
Não há plateia. Não há aplausos.
Muitas vezes, não há nem recompensa imediata, a curto prazo, pelo que está fazendo.
Como diz Nietzsche, é raro mentirmos para os outros; as mentiras mais frequentes são as que contamos para nós mesmos.
Escondê-las dos outros e, principalmente, de nós mesmos é uma espécie de segredo.
Um segredo do que há de mais imoral.