
Do mesmo modo que o jogo What Remains of Edith Finch, esse belo longa de Joachim Trier, diretor norueguês já responsável pelo belíssimo A Pior Pessoa do Mundo, sobre o qual já escrevi neste espaço — e cujo texto deixarei para quem quiser ler ao final deste —, coloca a casa como protagonista: um objeto externo que guarda lembranças do passado e que, ainda no presente, influencia o modo de viver dos vivos.
O Valor Sentimental, do filme de Joachim Trier, não se refere ao valor financeiro. Pelo contrário. Parece defender a tese de que, quando o valor de um objeto é apenas financeiro, ele é o mais barato e menos valioso possível no mundo sentimental. O que dá peso e valor a algo externo é justamente o preço afetivo que carregamos dele dentro de nós, dentro do coração.
A casa de What Remains of Edith Finch, parecida com a de tantos brasileiros — um grande puxadinho formado por inúmeros cômodos e pelas pessoas que viveram neles — lembra aquelas casas onde conviviam parentes, puxadinhos e agregados, universo familiar que Machado de Assis imortalizou em Dom Casmurro, no célebre capítulo ‘O Agregado’.”
O jogo mostra como cada um daqueles personagens viveu e morreu naquela casa e, principalmente, como Edith Finch guarda a memória de cada uma dessas vidas e de que maneira suas ausências continuam atravessando sua própria existência.
Conforme caminhamos pela casa, como quem monta um quebra-cabeça, vamos conhecendo a história de cada pessoa que ali habitou.
Do mesmo modo, a casa de Valor Sentimental deixa de ser apenas um objeto. Ela se torna matéria de redação para uma garota que virou atriz, influenciada pelo pai, um cineasta famoso, mas que, talvez como tantos grandes artistas, fosse um pouco ausente de tudo e presente apenas para a própria arte.
O filme acompanha também as discussões entre ele e a mãe, a inevitável separação, o vazio deixado por sua ausência na família e, anos depois, a tentativa de reconciliação com as filhas.
Em ambas as obras, a memória não é uma fotografia objetiva do passado, mas uma construção da maneira como esse passado continua nos atravessando no presente.
Ela nunca é um processo imparcial, porque os fatos sempre chegam até nós filtrados pela interpretação que fazemos deles.
A originalidade do filme de Trier reside justamente no fato de que seus personagens utilizam a arte para justificar os acontecimentos do passado e dar sentido ao presente.
Mais ou menos como eu mesmo faço.
A arte é capaz de devolver dignidade até mesmo às pessoas que jamais a tiveram.
É por isso que um lugar como o Recanto das Letras, que possibilita, por meio da arte, dignificar o passado, compreender o presente e ressignificar o futuro, passa a ter um valor afetivo e sentimental tão grande para aqueles que escrevem.
O próprio Recanto, nesse caso, passa a ser como uma “casa” simbólica onde experiências podem permanecer e ser revisitadas
Gostou deste texto?
Então leia também minha resenha sobre A Pior Pessoa do Mundo, outro filme de Joachim Trier, igualmente escrito em parceria com Eskil Vogt e estrelado pela atriz que interpreta Nora. Link a seguir:
https://daveledave.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=7960766