O povo brasileiro é muito criativo na hora de massacrar o português. Fala as palavras erradas com tanta naturalidade que, por vezes, a gente até passa a acreditar que a versão correta é que está errada.
Pierre Bourdieu aprovaria, do túmulo, essa evidência sociológica, pois até a gramática deixa de ser apenas uma questão de regra e passa a ser uma determinação do campo social. Se todos falam errado, o errado acaba se tornando o certo. Não é verdade que, em terra de cego, quem tem um olho é rei; na prática, quem tem um olho acaba sendo excluído, por enxergar diferente da maioria.
É justamente essa inversão que George Orwell retrata em A Revolução dos Bichos. À medida que os porcos assumem o poder, eles alteram os próprios critérios que distinguiam o certo do errado, até que ninguém mais consegue diferenciar porcos de homens. A máxima “todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais do que os outros” revela que, quando uma convenção é imposta e aceita coletivamente, até uma contradição passa a soar natural. Com a linguagem acontece algo semelhante: quando o erro se torna a norma, é a norma que passa a parecer errada.