LEVANTA, MENINO NEY!

Na onda da transmissão da Copa pela CazéTV, com muita gritaria e pouca graça — diferentemente de Silvio Luiz, que era muita graça e pouca gritaria —, um dos sinais dos tempos é o repórter doidão, que mais parece um repórter do Pânico na TV ou do CQC, mas com uma espontaneidade da insanidade.
Isso mostra como o futebol virou entretenimento, com jornalistas e celebridades ligadas ao esporte fazendo comerciais, principalmente de bets.
Como diz Juca Kfouri, jornalista de verdade não deveria fazer publicidade, sobretudo de casas de apostas. Afinal, como criticar um problema social quando se está com as mãos sujas pelo dinheiro dele?
Há ex-jornalistas que hoje se tornaram meros clubistas, como Mauro Cezar Pereira, que desfila pelos Estados Unidos com seu iPhone 17 laranja. Esse comunista...
Mas, voltando ao repórter doidão, viralizou sua entrevista com a americana Caixa, ou Box, que contou que uma das expressões em português que aprendeu — talvez por meio do namorado brasileiro, um negão — foi: Levanta, menino Ney.
Desde aquela Copa em que Neymar parecia jogar mais deitado do que em pé, pelas simulações que viraram até piada em Os Simpsons, essa frase acabou sintetizando a falta de comprometimento de Neymar com o próprio jogo de futebol.
O retrato de Neymar querendo se impor pela valentia e pela malandragem contra o goleiro norueguês, em vez de fazê-lo pelo futebol no momento do pênalti, parece refletir uma mudança que observo diariamente.
A quadra society por onde passo durante minhas caminhadas, que antes oferecia escolinha de futebol, hoje deu lugar, pasmem, a uma escolinha de futevôlei.
É por isso que o Brasil não consegue mais desenvolver o pensamento abstrato, aquele por trás do futebol que permite tocar a bola, propor o jogo, dominar o território e controlar a posse.
Em vez disso, continuamos formando bichos circenses que vivem de dribles inúteis ou de se jogar no chão — símbolo perfeito do país atual.
Porque até para jogar futebol é preciso inteligência, sobretudo no meio-campo, onde muitos jogos são ganhos e definidos.
Por isso o Brasil revela um monte de pontas que não sabem pensar e quase nenhum meio-campista como Modrić ou Ødegaard.
Pior ainda: o nosso futebol moleque, cuja escola era a rua, com traves improvisadas por chinelos Havaianas (vote 13), foi substituído por quadras de futevôlei e tênis de praia, em plena São Paulo.
Enquanto isso, o menino Ney continua caído. E o futebol brasileiro também. Sem previsão de se levantar.