Eu Preciso Mais do Recanto das Letras do que Ele de Mim

A arte é uma forma. A literatura, as letras, são apenas um dos meios pelos quais ela pode — ou não — se manifestar. Literatura não é arte em si. O que determina isso é justamente a forma.
É por isso que um texto de filosofia analítica dificilmente pode ser considerado arte, a menos que seja muito bem escrito, possuindo qualidade literária. Já a filosofia continental, como Assim Falou Zaratustra, pode sê-lo.
Ou então devemos admitir outra possibilidade: que uma ideia seja tão bela que sua própria estrutura compense uma escrita menos elegante. Afinal, o que faz um texto ser arte não é a inteligência do argumento. Se fosse assim, grandes dissertações acadêmicas seriam obras-primas artísticas.
A própria vida, sob uma perspectiva ética, pode ser uma obra de arte.
Mas, se essa vida não deixa materialidade, vestígios, provas de que foi artisticamente relevante, podemos nos perguntar se ela realmente existiu enquanto obra.
É justamente por isso que o Recanto das Letras é tão importante para mim.
Ele oferece a possibilidade de transformar uma vivência estética em alguma permanência material.
Se hoje a plateia ainda é pequena, talvez amanhã ela não seja.
Veja o supercomputador da Opta durante a Copa do Mundo.
Há poucos dias ele apontava a Espanha como favorita. Hoje já considera a França a principal candidata ao título.
Isso mostra que até os computadores mudam de ideia.
E mudam porque utilizam informação produzida por seres humanos.
Nada é mais moderno do que a informação, assim como nada mais ultrapassado do que a palavra ultrapassado.
As letras, a informação e o conhecimento nunca saem de moda.
Quem sabe, no futuro, meu site não possa servir como banco de dados para novas tecnologias ou novas formas de compreender o mundo?
Quem sabe eu não venha a ser estudado, em alguma medida, como hoje estudamos Nietzsche, justamente porque futuros sistemas de inteligência artificial encontraram utilidade naquilo que escrevi — desde que antes não se apropriem silenciosa e vaidosamente do conteúdo que produzi.
É por isso que deixar alguma materialidade da própria passagem é tão importante.
No grau mais modesto, uma simples fotografia.
No mais elevado, uma página cultural, filosófica e, quando possível, engraçada, no Recanto das Letras.