Eu Tenho a Obrigação Moral de Ser uma Pessoa Boa

Reconheço que alguém com tantos privilégios quanto eu — digo, tanto em termos de uma natureza generosa quanto de condições em geral — tem a obrigação de ser uma pessoa boa.
Não digo "boa" no sentido moral kantiano, mas boa no sentido do talento, como nas parábolas: alguém capaz de fazer frutificar aquilo que recebeu e, quem sabe, servir de inspiração.
É claro que nada do que faço visa inspirar alguém. Tampouco penso primeiro no outro e só depois em mim, porque, se assim fosse, deixaria de ser autêntico. Mas, se alguém percebe que caminho diariamente e resolve repetir esse hábito por julgá-lo bom; se percebe que, com dieta e treino, é possível emagrecer; que a elegância minimalista possui um charme próprio por talvez representar o último grau da sofisticação; que passa a ler bons livros, assistir a bons filmes e, principalmente, escrever sobre eles, então acredito, segundo um raciocínio que aproxima Kant e Sartre, que uma ação é boa quando, replicada por todos, produziria algum tipo de evolução. Nesse sentido, meu comportamento só pode ser considerado bom.
Tenho consciência de que os aspectos físicos — treino, caminhada e dieta — são os mais fáceis de reproduzir. Embora, se fossem realmente fáceis, todos fariam. Manter consistência durante anos continua sendo uma capacidade rara.
Confesso, porém, que a minha consistência é quase uma fraude, porque eu realmente gosto de caminhar, treinar e fazer dieta. Para mim, nada disso representa esforço.
Aliás, jogar videogame, ler, assistir a filmes, ver futebol, treinar ou caminhar praticamente produzem o mesmo prazer. A única diferença é que o tempo é limitado e, por isso, preciso administrá-lo.
Agora, se fosse para estudar algo pelo qual não tenho o menor interesse, dificilmente conseguiria permanecer concentrado durante vinte minutos. Acho que essa também é uma forma de inteligência e de lucidez: reconhecer os próprios afetos antes de fingir virtudes.
Mesmo num eventual hedonismo niilista, retiro prazer semelhante de todas essas atividades. A diferença é que algumas, como videogame e outras banalidades, exigem menos esforço e talvez sejam menos recompensadoras para a sociedade, embora igualmente prazerosas para mim.
É justamente isso que torna todos esses privilégios, como disse no início, incompatíveis com uma vida medíocre.
Em outras palavras: para mim, seria moralmente inaceitável não me tornar a melhor versão possível de mim mesmo.