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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


A Culpa da Exploração É do Trabalhador

 


 


 

A MORAL DO PATRÃO

Hoje, ao comprar um simples Halls, presenciei uma cena anódina que me revoltou.

 

Uma funcionária de uma padaria por onde sempre passo durante as minhas caminhhadas — talvez a Nova Freichel, na Avenida Doutor Rafael, não sei de quê — abordou o dono, uma espécie de poderoso chefão da padaria, o precursor, o pai que, claro, legará a padoca aos filhos; filhos esses que talvez nunca tenham trabalhado ou sobrevivido na iniciativa privada.

 

Com toda a educação, ela apenas perguntou se poderia receber o dinheiro da condução, pois o dela havia acabado.

 

Outros dois funcionários ouviram a conversa, um homem mais velho e outra funcionária também, e, quando ela se afastou, indignaram-se:

 

— Como pode ser tão sem noção assim? Foi pedir justamente para o dono.

 

Quando o próprio explorado internaliza a moral do patrão, alcança-se o estágio último da alienação do trabalhador dentro do modelo capitalista.

 

E esse exemplo me parece dos mais didáticos.

 


 

O ESPETÁCULO DO TRABALHO

Igual ao que vi esta noite. Um dos participantes do programa da CazéTV estava com tanto sono que acabou dormindo ao vivo.

 

Depois se desculpou, dizendo que havia trabalhado durante a noite e que continuava trabalhando.

 

Uma empresa que movimenta cifras tão expressivas não teria condições de substituir, por uma única noite, um funcionário completamente exausto?

 

Pelo contrário, a situação ainda acaba sendo utilizada para viralizar e gerar mais audiência.

 

Será que ainda viverei para assistir a algo pior?

 


 

A LUCIDEZ

Tenho consciência de que minha geração talvez nem chegue a se aposentar.

 

Talvez o trabalho que desenvolvo hoje exista justamente para que eu não precise depender de uma aposentadoria no futuro.

 

E, mesmo que um dia eu tenha de jogar o jogo do capital, pretendo fazê-lo com extrema lucidez sobre o meu papel dentro dessa engrenagem.

 

Meu cuidado com o corpo, com a saúde e, principalmente, com o intelecto, o repertório e a criatividade existe justamente para aumentar meu poder de barganha sobre a minha própria mão de obra. Numa época de tanta mediocridade, quem pensa deveria valer mais.

 

Se o capital não oferecer esse espaço, resta a iniciativa criadora do empreendedorismo, que continua sendo, para mim, uma das formas mais dignas de viver.

 

Mas, se um dia eu empregar alguém, espero jamais esquecer as críticas que hoje faço ao próprio modelo do capital.

 

Porque há que enriquecer, mas sem perder a ternura jamais.

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 01/07/2026
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