Você Tem Ciúmes de Quem Ama?

Sou como a personagem Delphine, de O Raio Verde, de Eric Rohmer: acredito nas coisas do amor.
Ou como o personagem de Alphaville, de Godard, que acreditava nas grandes inspirações da consciência.
Acredito, portanto, que quem ama sente ciúmes.
Mas não tenho medo da traição.
Ora, não que eu não possa ser traído.
Só que, para mim, a traição não é algo que se deva temer, pois ela oferece um dado valioso sobre o parceiro.
No meu caso, vendo a banalidade dos homens, enxergaria uma eventual traição muito mais como uma punição do que propriamente como uma traição.
Afinal, quem mais começa um texto citando Godard e Eric Rohmer? Com humor e delicadeza.
Só alguém realmente selvagem... Animalia primi.
Portanto, não há o que temer.
Uma amiga me disse certa vez que o atual namorado — ou seja lá qual seja o status que ela lhe atribui — era, abre aspas, "brilhante".
Perguntei o que exatamente ele dizia de brilhante.
Ela tergiversou, claro.
Disse que brilhante era a maneira como ele falava, e não propriamente o que falava.
Ora, tenho certo ceticismo com esse brilhantismo que não produz materialidade, nem mesmo nas formas mais banais das redes sociais.
Esses gênios de si mesmos, filósofos de mansarda, como no poema Tabacaria, de Fernando Pessoa, me cansam.
É por isso que sinto ciúmes de quem amo.
Mas não temo traição alguma.
Na traição, antes de tudo, a gente trai a si mesmo.
E só depois, eventualmente, outra pessoa.