
Lolitamente encantado por uma garota bem jovem, um homem bem mais velho protagoniza este filme de Rohmer chamado O Joelho de Claire.

Tema já recorrente do diretor francês, como em Pauline na Praia, no qual relata a história de Pauline, uma garota que vai passar as férias na praia com a mãe e acaba se apaixonando, em algum sentido, por alguém mais velho.
Mas aqui o objeto de desejo não são propriamente garotas jovens.
Mas um joelho. O joelho pertence a Claire.
E todos os personagens são devaneios da escritora Aurora. Igual Vila Aurora, onde dizem também morar um escritor de talento, que envolve seu amigo nessa trama meio Ligações Perigosas, de Choderlos de Laclos, numa versão mais light, digamos assim.
Esse amigo vai passar as férias na casa de campo com Aurora, a irmã de Claire e a própria Claire, que chega mais tarde junto com seu joelho.
A ideia da amiga desse Humbert Humbert francês é que ele seduza a filha da dona da casa para que ela escrevesse uma história.
Ele, que era casado, assim como o visconde de Ligações Perigosas, em um primeiro momento se nega, mas, percebendo os encantos pueris e tenros da moça, consente.
Peço perdão por não falar o nome de todos os personagens. Já faz algumas semanas que vi o filme e não me lembro.
Mas fato é que a irmã de Claire se encanta mais por ele do que ele propriamente deseja seduzi-la.
Ela é mostrada como, apesar da idade, uma jovem madura, que sabe dos seus sentimentos e emoções.
Como os personagens de Rohmer se denunciam pela fala, através da retórica madura ela evidencia toda a sua ingenuidade infantil, mas espirituosa.
Após algumas confissões, finalmente Claire chega ao campo com seu namorado e seu joelho.
E aqui o joelho é importante, porque ele é um detalhe ínfimo do corpo dessa bela garota.
O que é o detalhe do joelho diante de uma escultura?
Ninguém vê a Vênus de Milo e se fixa no cotovelo (Até porque ela não tem nem braço, quanto mais cotovelo). A parte vale menos que o todo.
Porém, no caso de Claire, ela é pintada por Rohmer, diferentemente de sua irmã, como sendo alguém que não é mais nada do que seu corpo, sua beleza… seu joelho.
De modo que, se dissesse que ela tem um olho lindo ou um joelho escultural, daria no mesmo.
Mas fato é que o homem se apaixona pelo joelho de Claire e logo se esquece da irmã dela, voltando sua atenção para separá-la do namorado, que é pintado como sendo belo, mas tão vazio quanto Claire, tão idiota quanto sua conta financeira alta. Um playboy francês.
E, se os do Brasil já são insuportáveis, imagine um francês.
E ele nem precisa se esforçar, porque vê o namorado de Claire a traindo.
Bola uma situação inteira para ficar a sós com a garota e relatar a traição a ela, que chora.
Excelente oportunidade de se aproveitar da situação e finalmente tocar o objeto do seu desejo: o joelho.
De fato, apesar do tema um tanto delicado, a cena mais lasciva é justamente quando, diante das lágrimas dela, ele toca em seu joelho.
Porém, mesmo após o fato da traição, Claire, como toda garota-joelho, prefere desconsiderar e perdoar seu namorado.
Pelo menos ela rendeu uma boa história para Aurora e para os moradores de Vila Aurora, como eu, que está escrevendo este texto. Fim.