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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

COM UM PLANO MÉDIO E UM CLOSE-UP SE FAZ QUALQUER FILME

 



 

“o rosto humano é a grande paisagem do cinema” - Ingmar Bergman

 

Estou convencido, após anos de cinefilia, de que, quando as luzes se apagam e a projeção da película surge como uma transparência luminosa na tela, é justamente quando a ficção começa que a realidade se revela.

 

E também estou convencido de outra coisa: para contar qualquer história basta um plano médio e um close-up.

 

Perseguições. Explosões. Cortes rápidos e frenéticos. Nada disso conta uma história mais satisfatória do que esses dois planos cinematográficos.

 

A poesia habita na simplicidade da forma.

 

Plongée e contra-plongée não passam de variações de um mesmo gesto.

 

Travellings e planos-sequência são apenas prolongamentos de uma forma já existente.

 

Godard mostrou todo um acidente de carro, todo um desfecho trágico em O Desprezo, praticamente através de um diálogo e de uma elipse que corta diretamente para a consequência do acontecimento.

 

Rossellini narrava guerras inteiras filmando pessoas comuns em planos médios, cercadas por uma dúzia de coadjuvantes.

 

Porque o importante nunca foi a guerra. Nem o acidente. Nem a explosão. Mas aquilo que acontece entre as pessoas. E para isso um rosto basta. Ou dois.

 

Talvez por esse motivo nada escandalize mais o bom gosto do que as cifras pornográficas gastas em certas produções contemporâneas ( Dark Horse)

 

Não apenas pornográficas no orçamento. Mas igualmente pornográficas no conteúdo.

 

Filmes que confundem propaganda com arte. Marketing com narrativa. Militância com cinema.

 

Como se o tamanho do investimento pudesse substituir uma ideia.

 

Ou a quantidade de câmeras pudesse compensar a ausência de pensamento.

 

Eu prefiro recorrer ao brasileiríssimo Cinema Novo.

 

Aquela fórmula simples e genial segundo a qual, para fazer cinema, basta uma câmera na mão e uma ideia na cabeça.

 

Ao que eu acrescentaria apenas uma pequena correção. Uma câmera na mão. Uma ideia na cabeça. E a coragem de filmar um plano médio ou um close-up.

 

Porque talvez seja exatamente aí que o cinema começa.

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 24/06/2026
Alterado em 24/06/2026
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