COM UM PLANO MÉDIO E UM CLOSE-UP SE FAZ QUALQUER FILME

“o rosto humano é a grande paisagem do cinema” - Ingmar Bergman
Estou convencido, após anos de cinefilia, de que, quando as luzes se apagam e a projeção da película surge como uma transparência luminosa na tela, é justamente quando a ficção começa que a realidade se revela.
E também estou convencido de outra coisa: para contar qualquer história basta um plano médio e um close-up.
Perseguições. Explosões. Cortes rápidos e frenéticos. Nada disso conta uma história mais satisfatória do que esses dois planos cinematográficos.
A poesia habita na simplicidade da forma.
Plongée e contra-plongée não passam de variações de um mesmo gesto.
Travellings e planos-sequência são apenas prolongamentos de uma forma já existente.
Godard mostrou todo um acidente de carro, todo um desfecho trágico em O Desprezo, praticamente através de um diálogo e de uma elipse que corta diretamente para a consequência do acontecimento.
Rossellini narrava guerras inteiras filmando pessoas comuns em planos médios, cercadas por uma dúzia de coadjuvantes.
Porque o importante nunca foi a guerra. Nem o acidente. Nem a explosão. Mas aquilo que acontece entre as pessoas. E para isso um rosto basta. Ou dois.
Talvez por esse motivo nada escandalize mais o bom gosto do que as cifras pornográficas gastas em certas produções contemporâneas ( Dark Horse)
Não apenas pornográficas no orçamento. Mas igualmente pornográficas no conteúdo.
Filmes que confundem propaganda com arte. Marketing com narrativa. Militância com cinema.
Como se o tamanho do investimento pudesse substituir uma ideia.
Ou a quantidade de câmeras pudesse compensar a ausência de pensamento.
Eu prefiro recorrer ao brasileiríssimo Cinema Novo.
Aquela fórmula simples e genial segundo a qual, para fazer cinema, basta uma câmera na mão e uma ideia na cabeça.
Ao que eu acrescentaria apenas uma pequena correção. Uma câmera na mão. Uma ideia na cabeça. E a coragem de filmar um plano médio ou um close-up.
Porque talvez seja exatamente aí que o cinema começa.