POR QUE NIETZSCHE É O FILÓSOFO MAIS IMPORTANTE DA ATUALIDADE

Como diria Tite sobre Daniel Alves: Nietzsche é uma figura que transcende a filosofia.
A diferença é que, no caso de Nietzsche, isso é verdade.
A declaração de Tite era apenas um sintoma da decadência do treinador.
Isso porque o filósofo alemão talvez seja o pensador mais conhecido da atualidade, tanto dentro das cátedras universitárias quanto fora delas.
A ponto de ter se tornado cultura pop.
Apesar de não ter conhecido reconhecimento em vida, ele próprio pressentia sua posteridade.
Em vários momentos escreveu como alguém convencido de que seu lugar estava entre os maiores nomes da história do pensamento.
E em Ecce Homo chega a sugerir algo ainda mais audacioso.
Como se a publicação de sua obra inaugurasse um novo calendário.
Assim como existe um antes e um depois de Cristo.
Nietzsche não criou um novo calendário.
Mas talvez tenha inaugurado uma nova era do pensamento.
Se você estuda filosofia hoje, cedo ou tarde terá de passar por Nietzsche. Mesmo quando discorda dele. Mesmo quando pretende refutá-lo.
Grande parte do pensamento contemporâneo estabelece suas posições a partir dos problemas que ele formulou.
A não ser que você seja um excêntrico moderno, moralista ou kantiano. Como costuma ser o senso comum.
Mas o pensamento instruído, sobretudo na tradição continental, é profundamente marcado por Nietzsche.
Sua influência torna-se particularmente evidente ao longo do século XX.
De Georges Bataille a Michel Foucault. De Gilles Deleuze a Jacques Derrida. De Gianni Vattimo a Michel Maffesoli.
E até mesmo em Slavoj Žižek, apesar do seu hegelianismo marxista.
Todos eles dialogam, direta ou indiretamente, com questões abertas por Nietzsche.
Podemos dividir a filosofia nietzschiana em algumas dimensões.
Existe um Nietzsche epistemólogo. Epistemologia é o estudo que investiga o que é o conhecimento e como fazermos para conhecer algo.
Um Nietzsche moralista — ou melhor, crítico da moral.
E até um Nietzsche místico.
O Nietzsche epistemólogo é aquele que desenvolve o método genealógico.
Que investiga a origem histórica dos valores.
Que pergunta de onde surgem nossas crenças.
E por que passamos a considerá-las verdadeiras.
Ele olha para a história das ideias e pergunta: isso afirma a vida ou a nega? Fortalece ou enfraquece?
Produz potência ou ressentimento?
É essa investigação que servirá de inspiração para as arqueologias históricas de Foucault.
Há também o Nietzsche que rejeita as categorias tradicionais de bem e mal.
Não para defender a ausência de valores.
Mas para substituí-los por outro critério. A vida. O corpo. A fisiologia. A potência.
O bom não é aquilo que corresponde a um mandamento transcendente.
O bom é aquilo que favorece a expansão da vida.
Aquilo que aumenta a potência de agir.
O sentimento de crescimento.
O transbordamento da energia vital.
O que ele chamou de vontade de potência.
Por fim existe o Nietzsche mais difícil. O Nietzsche das teses menos verificáveis. O filósofo do eterno retorno. Do amor fati. Da aceitação radical da existência.
Esse Nietzsche parece, por vezes, aproximar-se de tradições orientais. Do budismo.
De certas filosofias cíclicas do tempo. Embora sempre à sua maneira. Sem transcendência. Sem salvação. Sem outro mundo. Apenas este. Imanentemente teratológico amoroso.
E a pergunta que talvez resuma toda a sua filosofia:
Você seria capaz de desejar viver esta mesma vida, exatamente como ela foi, infinitas vezes?
Se a resposta for sim, Nietzsche diria que você aprendeu a amar o destino.