EU LEIO NIETZSCHE COMO SE ESTIVESSE LENDO TURMA DA MÔNICA

A primeira vez que li Nietzsche, ele me causou o assombro da minha própria ignorância.
Eu lia Nietzsche como se fosse literatura, não filosofia.
Por isso não entendia praticamente uma palavra.
Eu entendia relativamente de literatura e achava que ter compreendido A Montanha Mágica e Ulysses, de Joyce, bastaria para entender qualquer obra escrita da história da humanidade.
Cometi o erro de tantos amadores: começar justamente pela obra mais conhecida do autor.
Particularmente na filosofia, isso costuma ser tão contraproducente que pode fazer alguém perder definitivamente o interesse por um pensador.
É como começar Guimarães Rosa por Grande Sertão: Veredas, e não por Manuelzão e Miguilim.
Tão icônico que virou até nome do gato do jornalista Reinaldo Azevedo.
Aliás, se você ler este texto, Reinaldo, um abraço. Mas divago. Voltemos.
Mais de dez anos depois daquela primeira leitura, hoje leio qualquer texto de Nietzsche com a naturalidade de quem lê um gibi da Turma da Mônica.
Claro que há nisso alguma capacidade cognitiva, facilidade de aprendizado, autodidatismo, neuroplasticidade, memória e outras palavras que os neurocientistas gostam de utilizar.
Mas existe também algo mais simples. Bom gosto. E capacidade de escolha. Escolher bons professores. Escolher bons intérpretes. Escolher quem possui as chaves do castelo. Até que, um dia, você já não precise mais delas. E consiga caminhar sozinho pelos corredores.
Foi exatamente isso que aconteceu comigo.
Entre esses professores, gostaria de destacar especialmente Oswaldo Giacoia.
Suas aulas são aquelas às quais sempre retorno, como um eterno-retorno nietzscheano.
Como quem revisita uma cidade importante da juventude.
E frequentemente me surpreendo ao ouvi-lo citar passagens que eu acreditava terem marcado apenas a minha memória particular.
Como se determinadas frases de Nietzsche tivessem sido escritas exclusivamente para mim.
E então descubro que elas também haviam marcado outros leitores. Inclusive os melhores.
A ele devo muitas das chaves que abriram as portas da filosofia nietzschiana.
Talvez o principal ensinamento que extraí dessas leituras seja a necessidade de resgatar nossa essência como seres humanos. Não como substâncias. Não como identidades fixas. Mas como figuras de linguagem. Não gramaticalmente. Mas Ontologicamente.
Somos metáforas ambulantes. Interpretações provisórias.
Narrativas que contam a si mesmas enquanto caminham.
E talvez seja por isso que hoje eu leia Nietzsche com tanta facilidade.
Não porque ele tenha ficado mais simples.
Mas porque aprendi que filosofia não é uma coleção de respostas.
É uma maneira de aprender a formular melhor as perguntas.