CINEMA NADA TEM A VER COM CINEMA

Após minha incursão pelo cinema de Eric Rohmer, no qual descobri a cor e o diálogo, a nova empreitada é o cinema japonês dos anos 1950.
Mais propriamente Yasujiro Ozu e Paixão Juvenil, de Kō Nakahira, diretor que até então eu desconhecia.
Ozu, de certa forma, eu também desconhecia.
Havia visto apenas Era Uma Vez em Tóquio, mais por obrigação cinéfila do que por interesse imediato.
Afinal, trata-se de um daqueles filmes que figuram em qualquer lista dos trinta maiores de todos os tempos elaborada por um cinéfilo minimamente competente.
O filme narra, de maneira delicada e sutil, a dificuldade de um casal de idosos em envelhecer até serem lentamente esquecidos pelos próprios filhos.
Yasujiro Ozu é um diretor de relações. De pequenas histórias de convivência.
Não é propriamente um cineasta de imagens deslumbrantes, grandes atuações ou virtuosismos técnicos. A simplicidade é a magia do seu cinema.
Embora os títulos que vi recentemente — O Sabor do Chá Verde Sobre o Arroz e Pai e Filha — estejam longe do brilhantismo de Era Uma Vez em Tóquio. Pelo contrário. Em alguns momentos me pareceram tão exagerados e caricatos que chegam a ser cômicos.
É impossível não lembrar de Akira Kurosawa, o mais conhecido dos diretores japoneses, celebrado pelos filmes de samurai.
E a impressão que tive é que os personagens de Ozu são tão caricatos quanto os samurais de Kurosawa. Apenas trocando a espada pelo bule de chá.
O Sabor do Chá Verde Sobre o Arroz apresenta um grupo de mulheres irritantemente japonesas.

Cada uma parece mais megera que a outra.
Entre elas destaca-se uma esposa incapaz de suportar os hábitos simples do marido. O jeito de comer. O barulho do arroz. Os modos grosseiros. O fato de ele continuar sendo, apesar do dinheiro, um camponês.
Ao mesmo tempo, aconselha a sobrinha a aceitar um casamento arranjado, quando o pretendente era alguém próximo de todos, apenas tímido demais para agir sem os subterfúgios da tradição.
O filme também sugere como um hábito aparentemente inocente, como jogar pachinko, pode transformar-se em vício. E faz uma defesa da virtude do homem simples. Um sujeito incapaz de combinar gravata e terno. Sem refinamento. Sem cultura sofisticada. Mas sólido. Confiável. Honesto.
Ora. Como sabemos, "tudo o que é sólido desmancha no ar".
Sob condições extremas, até o homem mais sólido sucumbe.
É nos contextos-limite que conhecemos a verdade de alguém.
Por isso Ozu às vezes me parece fazer uma ode ao homem mediano. Ao homem comum. Como se ser um bom marido fosse não apenas uma virtude, mas praticamente a totalidade da existência.
Já Pai e Filha, como o próprio nome indica, trata da relação entre pai e filha.

Uma filha que, embora enxergue o pai como simplório, antiquado e por vezes até desagradável, prefere permanecer ao lado dele do que aceitar um casamento arranjado.
Para ela, uma vida verdadeira ao lado do pai vale mais do que um amor falsificado pela tradição. É um filme sobre afeto. E sobre despedida. Mesmo quando ninguém quer admitir isso.
Paixão Juvenil, de Kō Nakahira, chama atenção logo pela qualidade visual.
As imagens impressionam para um filme dos anos 1950.

O enredo acompanha dois irmãos apaixonados pela mesma mulher. Uma mulher casada. Que acaba se apaixonando por um deles.
O outro, tomado pelo ciúme, descobre o casamento e passa a utilizar essa informação como instrumento de chantagem emocional e sexual.
O desfecho é tragicômico.
Como tantas paixões humanas.
Mas, apesar das diferenças de qualidade entre essas obras, ainda estamos falando de arte. De cinema.
De autores tentando compreender pessoas. Relações. Desejos. Afetos.
Agora, quem assiste a filmes da Marvel cercados por tela verde, explosões digitais e efeitos especiais incessantes, talvez goste de algo muito parecido com cinema. Mas cinema não é.