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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

A ÉTICA DO ERRO

 


 

 


 

Na filosofia, acho que nenhuma reflexão é mais bonita do que a de Rousseau em Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens, quando ele apresenta o conceito de perfectibilidade.

 

Uma característica inerente ao ser humano.

 

Rousseau compara os homens aos animais que, diferentemente de nós, já nascem sabendo viver.

 

Como se viessem equipados com um software instalado de fábrica.

 

O homem, ao contrário, precisa aprender a viver.

 

E para aprender a viver, precisa errar.

 

Errar muito.

 

O erro não é um acidente da condição humana.

 

É uma de suas condições fundamentais.

 

Faz parte não da perfeição, mas da perfectibilidade.

 

Que é justamente a capacidade de aprender após o erro.

 

De transformar fracassos em experiência.

 

E experiência em sabedoria.

 

Perfectibilidade.

 

Palavra tão charmosa que os gurus contemporâneos — que talvez entendam de ganhar dinheiro, mas pouco de letras — resolveram traduzir por "resiliência".

 

Eu prefiro algo mais elegante.

 

E mais antigo.

 

Prefiro chamá-la de estoicismo.

 

Porque não se trata apenas de resistir.

 

Mas de transformar.

 

De fazer algo com aquilo que nos acontece.

 

Como diz Nietzsche: "O que não me mata me fortalece."

 

Ou, em linguagem mais fisiológica, a melhoria só acontece através da alostase transformada em homeostase.

 

O organismo é perturbado.

 

Sofre uma tensão.

 

Um desequilíbrio.

 

E, ao se reorganizar, torna-se mais apto do que antes.

 

O músculo cresce porque foi lesionado.

 

O sistema imunológico aprende porque foi atacado.

 

E talvez a própria inteligência exista porque erramos.

 

Se os animais já nascem sabendo viver, o homem nasce condenado a aprender.

 

E aprender é apenas outro nome para errar melhor. Porque mesmo errando, amanhã eu estarei fazendo as mesmas coisas. Só que cada vez melhor.

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 22/06/2026
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