QUAL É O MELHOR MÉTODO DE PENSAR? É O SEU?

Pode não parecer, mas nos meus textos há uma coisa rara hoje em dia: pensamento. A capacidade de pensar.
Como sabemos, pensar é o que mais consome tempo. Por isso a sabedoria popular desconfia tanto de quem pensa.
Nem precisa pensar, aliás. Basta ter a pose do pensador. Como o Pacheco de Eça de Queiroz. Já é suficiente para despertar suspeitas.
Antes de pensar por si mesmo, é preciso pensar com a cabeça dos outros.
O gênio, segundo Bakhtin, não é aquele que cria algo do nada.
Mas aquele que organiza o pensamento existente. O universo polifônico de ideias disponíveis no seu tempo. E o transforma em algo novo. Uma síntese dialética. Uma nova combinação.
Eu mesmo uso ideias de todos. Nada do que escrevo é exclusivamente original. Mas a forma talvez seja. O modo de organizar o pensamento.
Como quando Alex Atala pega uma receita banal, a transforma e a serve como alta gastronomia.
Agora, se os ingredientes forem ruins, não há cozinheiro que resolva. A diferença é que procuro trabalhar apenas com ingredientes bons. Com ideias frescas.
O grande adversário do pensamento é o senso comum. O pensamento sem reflexão. O pensamento automático. É por isso que me valho frequentemente da transvaloração de todos os valores. Ferramenta nietzschiana.
Embora o próprio Nietzsche tenha transvalorado o método socrático da dialética para questioná-lo.
A transvaloração consiste, em termos simples, em pegar valores considerados positivos e perguntar:
"E se isso não fosse uma virtude?"
E pegar valores considerados negativos e perguntar:
"E se isso escondesse uma força?"
A diferença está no critério de valor.
Se para o senso comum vale aquilo em que todos acreditam, e para Sócrates valem as ideias, para Nietzsche o critério deve ser a própria existência. A vida. A materialidade concreta.
Ora. Isso aumenta minha potência ou diminui? Aumenta minha felicidade? Minha impressão subjetiva de bem-estar? Aquilo que talvez seja apenas um sintoma do aumento da energia vital? Ou culmina em tristeza? Em diminuição da vida? Em empobrecimento da energia?
É a partir desse critério que desconfio dos valores herdados.
Valor comum → Valor do autor
Trabalho → Criação
Utilidade → Beleza
Segurança → Intensidade
Igualdade → Singularidade
Repetição → Originalidade
Acumulação → Produção de forma
Sucesso → Coerência
Moralidade → Estilo
Mas, como se retribui mal a um mestre permanecendo para sempre discípulo, tento colocar aquilo que há de particular em mim nos autores que consumo.
Por isso, ao contrário de Nietzsche, que frequentemente desconfiava do amor, eu procuro reconciliá-lo com a potência. Com a força. Com a criação.
Na minha filosofia estética da existência, cujo conceito central talvez seja o único realmente original da minha lavra, aparece a ideia de SOMA. Que também significa adição.
“Soma, além da droga de Admirável Mundo Novo, significa adição.
E adição, curiosamente, pode significar vício.
Mas Soma e adição também significam, segundo a filosofia da solidão e da escrita de Nietzsche:
"De tudo o que vê, ouve e vive forma instintivamente sua SOMA: ele é um princípio seletivo, muito deixa de lado. Está sempre em sua companhia, lide com homens, livros ou paisagens: honra na medida em que elege, concede, confia."
Talvez pensar seja exatamente isso. Não criar do nada. Mas escolher. Selecionar. Somar. E transformar essa soma em uma forma singular de existir.
