AMAR MUITO ALGUÉM JAMAIS PODE DOER

Se é amor, não pode doer. Nem machucar. Talvez o contrário. Curar. Ou embalsamar. Mais eficazmente que o Merthiolate, porque ele é remédio e não arde.
Se dói, é qualquer outra coisa, exceto amor.
Dizem que a única forma de amor verdadeiro é o amor platônico. Esse seria o verdadeiro amor desinteressado.
Não o altruísmo. Não a filantropia. Não o amor dos santos católicos que, ao darem algo ao próximo, mesmo amor, sempre recebem algo em troca.
Às vezes até o capital simbólico de serem simplesmente chamados de santos.
Agora amar sem esperar nada em troca, porque a outra pessoa sequer sabe que você existe, e talvez, se soubesse, diminuísse ainda mais suas chances de ser correspondido...
Ora, isso só pode ser amor de verdade. Amor eterno, enquanto dura.
Nem mesmo o amor por um ente querido, por um filho, por exemplo, possui essa característica.
O filho é alguém que você carrega dentro de si ou como parte de si.
Uma parte sua materialmente projetada no mundo. Ligada à mãe umbilicalmente.
Esse amor modifica, cura. Mas ele também é obrigatório.
Não amar um filho é quase equivalente a não amar a si mesmo. Porque ele faz parte de você.
Infelizmente, a recíproca não é verdadeira.
Um filho pode não amar seus pais como ama a si mesmo. Mas, nesse caso, ele é apenas egoísta. E não necessariamente fisiologicamente mau. Porque a maldade é sempre material e fisiológica. Nunca moral.