× Capa Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livro de Visitas Contato Links
DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


UM TEXTO SOBRE “PRIMEIRAS VEZES” NO RECANTO DAS LETRAS

 


 


 

A PRIMEIRA VEZ

Tudo que um dia termina, de que gostamos ou deixamos de gostar, teve uma primeira vez.

 

Se desejamos repetir um gesto, uma ação, ou a ausência do gesto: uma hesitação, por exemplo, é porque a primeira vez nos influenciou, seja para o bem ou para o mal.

 

Este é um texto sobre uma primeira vez boa que eu quis repetir.

 

E que começou em 2015.

 

Estamos no Festival Internacional de Cinema de São Paulo.

 

O homenageado da mostra e do cartaz daquele ano era Almodóvar.

 

E foi nela que vi pela primeira vez um filme do seu conterrâneo Victor Erice.

 

Ora, esse tal de Erice é importante para o cinema?, vocês me perguntam.

 

E eu respondo com essa imagem em que ele aparece cercado por gigantes da história do cinema.

 

 

Para estar ao lado de tantos gigantes, só sendo gigante também.

 

Ou estando nos ombros deles.

 

Naquela ocasião vi o documentário O Sol do Marmeleiro, um filme sobre a obsessão de um pintor em capturar a perfeição da luz e da sombra sobre um pé de marmeleiro.

 

Até que o sonho da imagem se transforma em obsessão.

 

E a obsessão em pesadelo.

 


 

ANA E O MONSTRO

Desta vez, ao assistir ao mais celebrado filme de Erice, O Espírito da Colmeia, percebi que ele também trata, de certa forma, de sonho, obsessão e pesadelo.

 

 

Nossa história se passa num pequeno vilarejo castelhano.

 

Uma espécie de Santa Fé do Sul espanhola, imagino eu.

 

Ana e sua irmã Isabel assistem à exibição de Frankenstein, adaptação do romance de Mary Shelley filmada por James Whale em 1931.

 

Também é a primeira vez de Ana diante de um filme de terror e imaginação.

 

E o que permanece em sua cabeça é justamente a cena mais icônica da película.

 

Aquela em que o monstro brinca com uma garotinha mais ou menos da sua idade.

 

A menina lhe oferece uma flor sem se importar com sua feiura. Sem medo. Sem preconceito.

 

Sem perceber a monstruosidade que aterrorizava todos os outros.

 

Mas depois, no desfecho deliberadamente ambíguo, a menina aparece morta.

 

E o filme não nos mostra exatamente o que aconteceu.

 

Foi o monstro?

 

Ele não conseguiu conter sua natureza diante da beleza e da inocência?

 

Ana pergunta à irmã:

 

— Por que ele a matou?

 

Naquela noite Isabel responde:

 

— Ele não a matou. Tudo nos filmes é uma fraude. Uma invenção. Uma trapaça.

 

Ora, a mesma acusação que já se fazia aos poetas.

 

Mas Isabel acrescenta que viu o monstro. Não como criatura de carne e osso. Mas como espírito.

 

E que para encontrá-lo bastava fechar os olhos.

 


 

A MORTE DA IMAGINAÇÃO

Que idade doce é a infância. E com ela a imaginação.

 

Lembro-me do meu sobrinho inventando brincadeiras sozinho.

 

E de mim mesmo no quintal de casa. Criando histórias. Viajando por mundos inteiros sem jamais ultrapassar os muros.

 

Mas existe um momento estranho na vida.

 

Você está brincando de hominho. Os personagens estão todos na sua mão. E, de repente, a imaginação não acende. Ela não clica.

 

Você percebe que infelizmente passou a idade de brincar de hominho. É quando conhecemos uma das primeiras mortes em vida.

 

Felizmente Ana ainda é criança.

 

E ainda possui muito tempo para cultivar a imaginação.

 

Mas o que mata a imaginação?

 

O que a faz desaparecer?

 

Ora. O terror.

 

Como o fascismo franquista dos anos 1940 em que Ana vive.

 

Mas o cinema é justamente o revigoramento da imaginação diante do terror.

 

Mesmo sendo uma fraude.

 

Mesmo sendo uma invenção.

 


 

O CINEMA E O TERROR

Gaspar Noé, talvez o diretor que filmou algumas das cenas mais absurdas que já vi no cinema, disse certa vez que conseguimos sentir prazer até diante das imagens mais chocantes porque sabemos que tudo é encenado.

 

Se fosse verdade, não suportaríamos.

 

Para mim, o verdadeiro terror não está numa cena de Gaspar Noé.

 

Mas em encontrar um mendigo dormindo na rua.

 

O mendigo é real.

 

O cinema é inventado.

 

A guerra é real.

 

A aldeia de Victor Erice é inventada.

 

E é incrível como filmes sobre temas semelhantes podem ser tão diferentes.

 

O Labirinto do Fauno, do conterrâneo de Erice, Guillermo del Toro, também fala sobre como a imaginação ajuda a suportar a guerra.

 

Já A Fita Branca, de Michael Haneke, mostra como o terror e a violência podem ser absorvidos pelas próprias crianças.

 

Sem mostrar a guerra diretamente. Mas mostrando suas consequências.

 

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain apresenta uma Paris lúdica, sonhadora e encantada.

 

Já em Irreversível, de Noé, a mesma Paris parece um inferno. Um pesadelo.

 

Qual delas é a verdadeira? Se ambas foram imaginadas.

 

Fato é que o cinema é inventado. As guerras não. 

O terror do fascismo não. 

O franquismo não. Ainda bem que existe a arte. O cinema. As imagens. As pinturas de Erice para nos refugiarmos.

 

Como o produtor de mel, pai de Ana e Isabel, que mantinha em sua casa um quadro de Caravaggio.

 

Algo que certamente irritaria um general franquista.

 

Aquele mesmo tipo de homem que, segundo a famosa frase, ao ouvir falarem de cultura, imediatamente sacava o revólver.


ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 13/06/2026
Alterado em 13/06/2026
Comentários