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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

O MEU PROBLEMA COM AS MULHERES É QUE ELAS NÃO ME INTERESSAM

(Mas não sou gay, que fique claro.)

 


 

Se o mercado afetivo se assemelha a uma competição, a minha observação é simples: praticamente nenhuma mulher atende aos meus critérios de relacionamento. A menos que eu os diminua. E, às vezes, confesso, recorro a certos artifícios dos quais não me orgulho para conseguir isso. Talvez porque o preço de não fazê-lo seja não desejar mais ninguém.

 

Mas esse é um problema meu, não delas.

 

A raridade produz solidão. A intelectualidade também. Não é à toa que existe a figura do eremita na montanha. Nem que Nietzsche tenha dito ser quase cômico imaginar um filósofo casado.

 

Posso dizer, sem falsa modéstia, que sou o que costumam chamar de uma pessoa interessante. Tenho repertório, leio bastante, escrevo. Ainda assim, nenhuma conversa que tive com uma mulher se pareceu com os meus textos. No máximo, surgem comentários espirituosos — retirados dos maiores intelectos que o mundo já produziu, mas ditos com tanta naturalidade que parecem ter acabado de me ocorrer.

 

Já citei Sartre, Machado de Assis, Kubrick e vários outros sem mencionar seus nomes. E, mesmo assim, o comentário costuma ser o mesmo: — Naaassa, como você tem conteúdo!!

 

Nesse sentido, pareço um personagem de Eric Rohmer. Alguém que fala e fala o tempo todo, denunciando os próprios desejos através das palavras.

 

Mas a verdade é que raramente quero falar sério com uma garota. Na maioria das vezes, apenas escuto. Sou educado, faço perguntas, presto atenção. E isso, aparentemente, já é suficiente para me tornar raro.

 

O curioso é que o principal fator talvez nem seja o conteúdo. Vivemos numa sociedade da imagem. As pessoas observam minha educação, meu modo de vestir, a impressão de coerência que transmito. Soma-se a isso uma certa aura de mistério, alguns boatos, e o resultado parece ser mais interesse do que rejeição.

 

Talvez exista uma curiosidade silenciosa: Será que esse rapaz tão educado esconde um retrato de Dorian Gray em algum lugar?

 

Sempre que passo a frequentar um ambiente — seja um curso, uma academia ou um trabalho — acabo me destacando com o tempo. Não necessariamente por mérito. Talvez apenas porque sou muito diferente dos homens que costumam conhecer.

 

Na academia, por exemplo, nunca sofri uma abordagem direta. Mas já vi pedidos desnecessários para revezar aparelhos, coincidências excessivas de horário e os inevitáveis olhares. Sempre eles.

 

Olhares que às vezes retribuo, mas sem ir além. Porque suspeito que, se fosse adiante, acabaria magoando alguém. Além disso, existe uma regra pessoal da qual dificilmente abro mão: não me envolver com pessoas dos lugares que frequento regularmente.

 

A última vez que me relacionei com alguém assim foi há mais de dez anos. No colégio, porém, a história era outra. Eu era o Pulguinha. Uma pequena lenda local. Talvez um dos três ou cinco alunos mais populares da escola. Se você for ao bairro onde cresci e perguntar quem era o Pulguinha, há uma boa chance de alguém apontar a direção da minha casa.

 

Meu professor de educação física apareceu uma vez no meu portão gritando meu apelido porque eu estava faltando às aulas. O motivo era simples: passava Rebelde no mesmo horário.

 

O diretor mais icônico da escola me escolheu como garoto-propaganda de uma campanha de incentivo à leitura. Meu pai, desconfiado, jurou que aquilo era propaganda eleitoral.

 

As garotas escreviam meu nome nos cadernos. Mas eu continuava inacessível.

 

E, de certa forma, sinto que continuo sendo esse mesmo sujeito, apesar de estar sempre disponível.

 

Hoje, nessa academia maior, talvez ninguém tenha me dado uma indireta explícita. Talvez porque eu esteja sempre de fones de ouvido e com uma expressão naturalmente mais fechada. Ainda assim, quando falam comigo, sou invariavelmente educado e gentil.

 

O que me incomoda é outra coisa.

 

Tenho a impressão de que muitas vezes me observam pela imagem que projetam em mim: alguém disciplinado, que se veste bem, que perdeu uma barriga enorme em poucos meses sem medicação, que lê rótulos, conta calorias, anda sempre nos mesmos horários e parece ter a vida sob controle.

 

Mas a distância entre a imagem e a realidade é enorme.

 

Talvez por isso eu tenha encontrado na escrita uma forma de corresponder não apenas a uma mulher, mas a todas. Os poetas tinham suas musas. Eu tenho o amor.

 

É ele quem sopra a maior parte dos meus textos.

 

Se este ficou ruim, talvez seja apenas falta de amor.

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 09/06/2026
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