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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


ESSE ANO, EU DESCOBRI A COR

 


 


 

A PUREZA DA COR

Talvez, nessa minha estranha obsessão monotemática à José Arcadio Buendía, a mais recente seja o cinema de Eric Rohmer e, através dele, a descoberta da beleza da cor, da pureza da cor.

 

Quando o cinema passou a ser colorido, talvez o maior marco tenha sido E o Vento Levou.

 

E, por ainda não estarem acostumados a usar a cor, esse filme possui tons tão fortes que, certamente, em mais de três horas de duração, chegam a incomodar o olhar.

 

E o cinema francês passou a ser colorido justamente na Nouvelle Vague, nos anos 1960.

 

Os primeiros filmes de Godard, Truffaut e Eric Rohmer, como Acossado, Jules e Jim e Minha Noite com Ela, eram em preto e branco.

 

Já os seguintes possuíam cor.

 

E o fato de a cor nesses filmes ser tão dominante e chamativa talvez seja a mesma sensação de quando se está no escuro e, de repente, se sai para o sol.

 


 

 

 

ESCALAFOBÉTICAS

Em Asas do Desejo, Wim Wenders propositalmente utiliza esse artifício.

 

À medida que um anjo decide virar humano por se apaixonar por uma trapezista de circo, o filme passa do preto e branco para cores quase escalafobéticas.

 

E há também a ideia de que cada cor pode representar um sentimento ou uma ideia.

 

Como na trilogia das cores de Kieslowski.

 

Onde a liberdade é azul. A igualdade, branca. E a fraternidade, vermelha.

 

Eu acho que talvez seja por isso que gosto tanto de azul.

 


 

ROHMER

Através do cinema de Rohmer, eu aprendi tanto a beleza da cor quanto a beleza colorida do diálogo.

 

Que, nos filmes do francês, tem tanta importância quanto uma perseguição ou um tiroteio nos filmes de Michael Mann ou William Friedkin.

 

E descobri que prefiro uma boa conversa à ação.

 

Nesse sentido, eu me identifico com a protagonista de O Raio Verde, Delphine.

 

Eric Rohmer tira o nome do filme de um livro de Júlio Verne.

 

O raio verde é um momento raro.

 

É o último instante do pôr do sol no qual ele fica verde.

 

Segundo Verne, quem visse o raio verde seria capaz de ler os pensamentos dos outros.

 


 

DELPHINE

E quando Delphine finalmente o vê, ela parece entender que isso só foi possível porque se abriu para novas experiências.

 

Porque se expôs.

 

Algo que eu sempre intuí naturalmente.

 

E porque evitou, por mais inevitáveis que sejam, situações que não lhe proporcionariam o prazer da descoberta. Apenas repetição. Vazia. Sem sentido. Sem significado.

 

Talvez o raio verde não permita ler os pensamentos dos outros.

 

Mas permita enxergar, por alguns segundos, aquilo que realmente desejamos.

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 07/06/2026
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