HOJE VOCÊ ESTÁ DO JEITO QUE O DIABO GOSTA. E ELE TEM BOM GOSTO!

O conceito do diabo é um conceito tardio na história do pensamento humano, inclusive da própria Bíblia.
Ele aparece explicitamente citado apenas no Novo Testamento e se consolida, além do conceito, como adversário e opositor maligno à figura de Cristo apenas por volta do século II, ganhando até a ideia de que ele já seria a serpente do Gênesis.
Na Grécia não havia a ideia de mal metafísico propriamente dito. O mal era simplesmente uma vida mal vivida.
O maligno, a perversidade e os demônios eram conceitos inexistentes.
Pelo contrário, Sócrates chamava de daimon a voz que soprava as inspirações da sua sabedoria filosófica, assim como as musas sopravam as inspirações aos poetas antigos.
O teatro, que é a tradução do grego para "lugar para ver", inicialmente aparece como celebração ao deus Dionísio, com danças chamadas ditirambos.
Depois o dramaturgo passou, além da dança, a incluir representações e atuações humanas históricas, cujo personagem se dava mal, e chamou isso de tragédia; ou do cotidiano, e chamou isso de comédia.
Em O Nascimento da Tragédia, Nietzsche cria os conceitos de dionisíaco e apolíneo como a essência do teatro grego, do grande estilo grego da tragédia.
É quando o elemento mais terrestre e corporal do dionisíaco ganha o contorno do pensamento belo da harmonia cósmica relativa à harpa de Apolo.
A flauta do deus Pã, com seus sons guturais, remete ao dionisíaco.
E a tragédia grega, do grande estilo grego, aparece como a união perfeita entre esses dois elementos aparentemente dissonantes: o apolíneo e o dionisíaco.
Aqui, em nenhum momento, há separação entre humano e divino.
Pelo contrário: o divino é justamente a união entre céu e terra, conceitos que o pensamento cristão procura separar.
Nas minhas caminhadas eu passo por essas casas de candomblé e o som que elas emitem me parece muito parecido com os ditirambos do deus Dionísio.
Com seus batuques rítmicos até que quem dança sinta emoções intensas.
E aqui o candomblé se parece mais com a Grécia do que com o cristianismo.
Em Espinosa, a maldade é compreendida apenas como aquilo que diminui a energia vital de um corpo.
A neurociência moderna, através, por exemplo, do trabalho de Antonio Damasio, que escreveu os brilhantes Em Busca de Espinosa e O Erro de Descartes, cuja tese central é a de que o eu cartesiano não existe de acordo com as descobertas recentes e que Espinosa estava certo, reforça essa percepção.
Primeiro sentimos os afetos do mundo.
Depois as emoções.
E só então verbalizamos essas experiências e pode surgir um pensamento ou uma razão.
Portanto, quando se faz um jejum no deserto, o delírio e o verdadeiro mal de Cristo eram as alucinações de um corpo não tentado pelo diabo, mas em clara e manifesta decomposição fisiológica.
Um estado capaz inclusive de fazê-lo ver o próprio diabo.
Todos que dizem ver o diabo ou serem tentados por demônios me parecem, em primeiro lugar, ter essa visão a partir de um corpo doente e delirante.
Que só pode produzir um pensamento igualmente doente e delirante.
Nietzsche entendeu bem isso. Os filósofos pós-modernos também.
Ele só pôde pensar o que pensou porque conheceu o estado da doença e o estado da saúde através do próprio corpo.
Quando Foucault, por exemplo, conciliava uma vida de excessos com sua atividade intelectual, isso não estava necessariamente em desacordo com seu pensamento.
Seu pensamento só podia ser produzido pelo equilíbrio entre esse elemento dionisíaco da sua vida e o elemento apolíneo do seu pensamento.
Talvez seja justamente por isso que os moralistas sempre tenham entendido tão pouco os filósofos.
E os filósofos tão pouco os moralistas.