OS MELHORES FILMES DA NOUVELLE VAGUE, AGORA, NO RECANTO DAS LETRAS

PRÓLOGO
Estranhamente, eu falava tanto da Nouvelle Vague, mas jamais tinha visto um filme de Eric Rohmer, até A Colecionadora, sobre o qual escrevia recentemente.
Ele faz parte dos ditos contos morais filmados por Rohmer.
Se Godard falava pela imagem, Rohmer falava através dos desejos dos seus personagens. Pelo diálogo dos seus personagens que acreditavam no próprio discurso, quando sua emoção decidia as suas ações mesmo antes de se tornarem palavras.
Rohmer foi o filósofo da Nouvelle Vague. Não da estética. Mas das emoções.
A Nouvelle Vague surgiu da mente de André Bazin, ironicamente o único que inaugurou a revista mas jamais filmou. Embora tenha sido mentor intelectual de todos eles.
Além dele, faziam parte da revista Truffaut, Rivette, Chabrol, Godard e Eric Rohmer.
Até recentemente eu achava que quem mais me identificava e falava comigo era Godard.
Apesar de eu ser mais sentimental como Truffaut.
Mas agora descobri que talvez eu goste mais do cinema de diálogo e conservador dos costumes de Rohmer.
E como todos eles começam com um prólogo.
E filme com prólogo é igual jogo de videogame que tem pulo duplo: só pode ser bom.
Então eu farei um prólogo do prólogo.
Ou um pulo duplo do prólogo para falar sobre Amor à Tarde.

Frederic, herói do nosso filme, assim como nosso Frederico Nietzsche, ou nosso Kiko, filho da Dona Florinda, tinha em comum serem burgueses.
No outro filme, A Colecionadora, Adrien era supostamente médico. Frederic é advogado.
Essas profissões tão burguesas de quem não sabe o que fazer e segue o conselho dos pais ou, pior, da sociedade.
Quem nem é burguês e não sabe o que fazer: faz Administração.
Já Chloé, personagem do nosso filme, era bartender. Pois servia prazer às pessoas. Muito melhor do que cuidar apenas de papelada.
No prólogo do nosso filme, vemos como Frederic leva uma vida burguesa de compras e observações das mulheres parisienses, que o fazem lembrar de como seu casamento era vazio.
Até que imagina possuir um estranho amuleto que emitia um sinal magnético capaz de eliminar a vontade de qualquer objeto exterior, algo que decorria de uma leitura dos seus dez anos de idade.
Esse estranho objeto emite seu sinal às mulheres que ele vê passar na rua: indiferentes, apressadas, hesitantes, ocupadas, acompanhadas ou mesmo solitárias.
E todas sucumbem à eliminação da vontade produzida pelo poder do estranho artefato e são rapidamente possuídas pelo devaneio e deleite de Frederic.
Exceto uma jovem, vestida como ele, que parece também ter dez anos, a mesma idade que ele tinha ao imaginar o sonho.
Ela diz que não iria com ele porque já amava outro e só sairia com esse outro.
O que fez nosso protagonista desacreditar do amuleto do amor e acordar do sonho.
Até que surge Chloé. Fim do prólogo. Do meu e do de Rohmer.
Chloé, intempestiva, era amiga do ex-amigo de infância de Frederic, Bruno.
E exercia um fascínio tão forte que fez seu amigo querer perder a vida por ela.
Mas a vida dela tomou um rumo diferente da de Frederic. Ela era bartender. Ele, burguês e casado.
Ela, uma mulher da noite. Ele, um homem da rotina.
Ela levava uma vida imprevisivelmente diferente da dele.
Até que decidiu, de repente, terminar tudo e até pedir um emprego para ele.
Chloé se questiona como nos tornamos quem nos tornamos.
Tão diferentes de quem éramos e de quem gostaríamos de ter sido.
Diferentemente do que Nietzsche recomendava: torna-te aquilo que és.
Voltando a fazer academia, encontrei amigos de infância.
Um deles disse que se tornou alguém que sempre criticou.
O que me fez pensar: quem eu me tornei?
Eu me tornei alguém que seguiu o conselho de Nietzsche e se tornou aquilo que é. Sem dúvidas.
Alguém que seria incapaz de filmar um filme como os de Rohmer.
Embora eles acreditassem na teoria do autor, segundo a qual o verdadeiro autor do filme é o diretor, e não o roteirista ou o produtor.
Mas eu seria incapaz de fazer um filme como esses.
Talvez eu fosse capaz de escrevê-lo. Mas jamais de dirigi-lo.
Engraçado.
Diferentemente do futebol, que aí sim eu seria capaz de treinar um time.
Pelas minhas observações autodidatas sobre o jogo, eu saberia exatamente como instruir os jogadores, como posicioná-los na defesa e no ataque, como se fosse uma mise-en-scène perfeita de cinema que eu já tivesse previamente imaginado.
Saberia motivá-los e dirigi-los taticamente rumo aos seus objetivos e, principalmente, rumo à beleza de um jogo bonito e bem jogado.
Acho que nisso de tornar-se aquilo que se é, eu sou um pensador e executor do futebol.
E, ironicamente, não do cinema.
Do objeto que tenho tatuado no braço.
A frase de Nietzsche é muito pertinente porque tornar-se aquilo que se é nem sempre é aquilo que se deseja ou que os outros desejam.
Eu desejaria ser técnico. Ou mesmo diretor.
Mas, por um e outro motivo, sou apenas quem escreve este texto. E dá ponto-final nele por estar muito longo.
Fazendo outra citação, sem contar o final do filme. Essa de Godard sobre a Nouvelle Vague:
“Não somos uma escola. Somos pessoas que gostavam dos mesmos filmes.”