
Como pode um filme sobre a vida de um homem da guerra como Napoleão servir tão bem ao propósito da cultura?
Napoleão costumava dizer, ao refletir sobre o poder das imagens, que, para falar a uma multidão, é preciso, antes de tudo, fuzilar os olhos das pessoas.
Esse então é um filme sobre a capacidade de extermínio em massa através da imagem.

Mais propriamente, 330 minutos — 5 horas e 30 minutos — e algumas versões chegam até 7 horas.
Com certeza, muito antes de Lawrence da Arábia, Os Dez Mandamentos e Cleópatra.
Hoje, 5 horas é algo que um jovem sequer conseguiria ver, mesmo se fosse separado em série.
Quanto mais um filme.
A não ser que ele apareça em parceria no Fortnite ou Roblox.
Mas não se preocupe: a versão disponível no Belas Artes à La Carte tem apenas 126 minutos.
E, ao contrário do original, que era mudo, este é falado.
Esse filme serve como prova de duas questões fundamentais.
Primeiro: para falar de Napoleão, nada melhor do que um próprio francês.
Ao contrário da patética versão de Napoleão com Joaquin Phoenix, de Ridley Scott, que só serviu para tirar o conhecimento do filme definitivo sobre Napoleão, que é o original de Abel Gance.
Que figura entre os 100 melhores longas de todos os tempos segundo a Cahiers du Cinéma.
Segundo: é que sangue e guerra fizeram coisas maiores pela humanidade, como dizia Nietzsche, do que a paz e a bondade.
Citava inclusive o próprio caso de Napoleão.
Foi um filme conhecido pela estética e pelos figurinos.
Tanto é que influenciou o grande estilista da Dior, John Galliano.
Até ele virar persona non grata na moda por suas declarações antissemitas e ser cancelado antes mesmo disso virar modinha.
Aliás, ele prova mais duas outras questões.
Antonin Artaud interpreta Marat como uma espécie de profeta e visionário da Revolução Francesa.
O que mostra o lado de Artaud lúcido.

O mesmo Artaud que inaugurou o Teatro da Crueldade e que foi analisado por Deleuze em O Anti-Édipo como exemplo do corpo sem órgãos.
Que é quando um corpo para de agir pela ótica conservadora dos órgãos e passa a ser energia pura.
E prova também como o eu único é uma fábula.
Já que nós, como Artaud, somos vários.
Conforme o estado energético e o modo como o mundo atravessa nossos corpos, surgem novas versões de nós mesmos.
Para reimaginá-lo em sua versão muda com imagem e sons, Abel Gance aparece como principal narrador do filme.
Adaptando textos de Stendhal e Balzac.
Que, ao lado de Proust, na minha opinião, são os melhores escritores da língua francesa.
E, consequentemente, de toda a literatura mundial.
Aliás, esse filme e este texto são uma sucessão de argumentos irrefutáveis sobre arte, cultura, moda e filosofia.
Na verdade, um resumo de mim mesmo.
Não de 7 horas para 1 hora e meia. Mas de 1 hora e meia para 34 anos da minha vida.

