× Capa Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livro de Visitas Contato Links
DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

ASSINEI O MELHOR STREAMING DE FILMES DE TODOS OS TEMPOS

 


 


 

Primeiro, antes de começar a ler, uma advertência: esse texto ficou longo, mas “não te assustes com o tamanho, pois tenho certeza de que vais gostar”. Mas, nesse caso, é verdade — se você chegar do primeiro parágrafo ao ponto final. Prometo. Vamos lá. E boa leitura.

 


 

O STREAMING

Se você aí, na sua cabeça, ao ler o título, pensou em Netflix, ou sua forma de distração principal é a Netflix, eu estimo melhoras pra você, mas principalmente lamento muito.

 

Aliás, o acervo de filmes clássicos ou de arte dos principais streamings deixa muito a desejar.

 

Não à toa alguns jovens estão adotando o rodízio de streaming.

 

De revezar entre assinaturas apenas quando tem algo que lhes interessa.

 

Já que uma assinatura individual da Netflix hoje daria pra assinar todos os streamings há um tempo atrás. Incluindo o próprio Netflix.

 

E eu também adoto essa estratagema. A exceção de qualidade em acervo é o Mubi, a Filmicca e agora o mais adequado pra mim, que assinei, é o Belas Artes À La Carte.

 

O Mubi é bom em oferecer filmes independentes.

 

Mas, pra alguém frágil como eu, o acervo é tão, digamos, transgressor, que só de olhar a capa e a descrição eu já passo mal. Quanto mais assisti-lo.

 

Já os filmes do À La Carte são filmes de arte no ponto exato de equilíbrio entre subversão e arte que eu aprecio. Como vemos abaixo.

 

 

 

Que talvez o mais picante e polêmico seja Instinto Selvagem.

 

Mas, como sabem, a sexualização nunca foi problema pra mim.

 

Exceto quando envolve sangue ou violência.

 

Ora, sangue não combina com sexo.

 

O líquido que quero ver no sexo é de outra cor. Se é que dá pra dizer que tem cor. Mas certamente não é vermelho… Mas enfim. Voltemos a falar da plataforma. E pra isso falarei sobre Nietzsche.

 


 

NIETZSCHE E O CINEMA

Em Ecce Homo, Nietzsche falava da importância, na nossa fisiologia, do tempo, lugar, ambiente e distrações.

 

E por isso a cultura, hobbies e leitura são tão importantes pra mim.

 

Porque entram na esfera das distrações que fazem nossa energia vital aumentar ou diminuir.

 

Hoje falarei sobre um filme que certamente faz aumentar.

 

Um daqueles em que nos identificamos tanto com o autor que parece que ele tirou as palavras da nossa boca.

 

Falo de A Colecionadora, de Eric Rohmer. Um dos nomes da Nouvelle Vague.

 

A beleza do filme — que todo amante ou estudante de cinema deveria ver — é que, pra fazer um bom filme, não precisa pedir 161 milhões pro Vorcaro.

 

Ao contrário de Dark Horse, a beleza dele está no diálogo. Em poucas locações. Mas com lindas paisagens, planos e mise-en-scène impecável.

 

É um filme-literatura. É um filme-poesia. Uma filosofia-filme. Ou uma sensualidade filosófica e literariamente filmada e escrita.

 


 

OS PERSONAGENS

Rohmer começa com um prólogo apresentando nossos três personagens.

 

Primeiro, Haydée. Bela. Cabelo curto.

Voluptuosamente sexy.

 


 

O segundo é um pintor transgressor e subversivo. Que mostra sua obra pra um diletante intelectual e certamente filósofo:

 

Um pote pintado por ele cheio de giletes.

 

Que ele julga perfeito como obra artística e representação do artista, Daniel.

 

Por mostrar a ideia da unidade artística envolta por lâminas de barbear. Como figura do que é impossível tocar sem se cortar.

 

E conclui que ele, o artista, faz lembrar o século XVIII.

 

No qual a elegância era importante através da impressão. Do efeito causado nos outros. E o efeito foi uma criação. O início de uma revolução. A distância imposta pelas pessoas elegantes às menos elegantes era fundamental. Porque criava um vazio em volta da pessoa E é esse vazio que a arte cria.

Através da criação de objetos supérfluos. Como roupas, acessórios ou até esse celular em que escrevo.

Objetos que criam beleza, mas sem os quais poderíamos perfeitamente viver.

 


 

O terceiro é Adrien.

 

Mas, em vez de escrever sobre ele, prefiro mostrar seu diálogo com duas mulheres sobre amor, beleza e feiura.

 

 

 

 

e a garota conclui: que somos culpados pela nossa própria feiúra. Que a feiúra é insulto!

 


 

O NADA ABSOLUTO

Adrien decide dar um tempo na sua rotina de dez anos na galeria de arte. Na casa de um amigo no litoral.

 

Ele tem namorada, mas ela não pode ir porque será modelo em Londres.

 

E aproveita pra encontrar um colecionador interessado em investir na galeria que pretende abrir.

 

Chegando lá, encontra Daniel. 
 

Que lhe dá a triste notícia de que Haydée passará as férias com eles.

 

Ele fica frustrado.

 

Porque seu plano inicial era tirar férias de dez anos sem fazer nada. Conseguir o nada absoluto. A ociosidade elevada à categoria de arte. Mas paradoxalmente ele acorda cedo perseguindo esse objetivo. Pra ir à praia todas as manhãs. E ler livros.

 

Que, segundo ele, é melhor do que pensar.

 

Porque ao ler outro está pensando por mim. E o mais difícil e trabalhoso é pensar por si mesmo.

 


 

Daniel, pelo contrário, acorda só depois do meio-dia.

 

Enquanto isso, Haydée é apelidada de “colecionadora”.

 

Porque a cada noite dorme com um homem diferente.

 

Ela diz que faz isso procurando significado. E por isso é muito julgada pelos companheiros de estadia.

 

Mas logo o filme vira um Jules et Jim. Uma mulher para dois. Porque ambos acabam se apaixonando pela garota.

 


 

HAYDÉE

Adrien, tentando se enganar, vê no comportamento da moça uma premeditação pra seduzi-lo.

 

Quando ela está só sendo ela mesma.

 

E, ao contrário, é ele quem tenta seduzi-la. E até assume que a quer pra fazer companhia a ele em sua solidão.

 

Daniel a defenestra. Mas também se encanta por ela. A ponto de fugir da casa pra não encontrá-la.

 

Outro momento que vale destacar é quando Adrien ironiza um dos amantes da jovem. Dizendo que ele era médico, oftalmologista. E que aqueles óculos escuros eram ruins pra enxergar. Pra ver. E todos percebem como um rico ignorante é idiota. E ela logo se livra dele.

 

Não fica claro se a profissão dele é médico mesmo. E é difícil ele ser médico e gostar de arte.

 

Mas, se até Guimarães Rosa era médico, e o autor que escreveu Gregos e Baianos, um dos maiores intelectuais do Brasil, era farmacêutico, então tudo é possível.

 


 

O COLECIONADOR

Adrien se encontra com o colecionador de verdade. Que ironiza sua vida de pobre artista.

 

E ele responde que prefere essa vida à daqueles que trabalham quarenta anos pra descansar. E quando chega a hora de descansar, finalmente, não sabem o que fazer. E morrem.

 

Sabemos como o colecionador se assemelha ao hedonismo do possuir sem propósito.

 

Como colecionadores de videogames, jogos, tênis, carros ou obras de arte. Quase como um acumulador. Os objetos possuem ele. Não o contrário.

 

Diferente dos objetos criados por Daniel . Ou da roupa para um dândi do século XVIII. Quando a cultura, a distância pela moda e o saber eram importantes.

 

Ele se assemelha ao hedonismo da colecionadora de homens, Haydée. E não obstante ele se apaixona. E é deixado por ela no final. Que hesita entre ficar com ele ou viajar com rapazes ricos.

 

E por essa hesitação ele decide voltar sozinho pra casa no campo.

 

Cumprindo enfim seu propósito de solidão artística.

 



Acho que se você chegou até aqui, dá pra dizer que cumpri a minha promessa, não?

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 22/05/2026
Comentários