ENTRAR NUMA LOJA DE “ARTIGOS RELIGIOSOS” DEVE SER IGUAL ENTRAR NUMA SEXY SHOP

Não que eu já tenha entrado em um ou em outro, mas sempre que caminho eu passo por uma loja de “artigos religiosos” e às vezes, meio de supetão, dou uma olhadinha de soslaio, de canto de olho. Como se só de olhar fossem cair vários encostos em mim.
Ou, no momento em que eu olhasse a estátua do Zé Pilintra, ele fosse jogar fumaça na minha cara. Ou a Pomba Gira. Sei lá o que a Pomba Gira faz.
Mas a ideia de uma pomba — e ainda giradora — sempre me aterrorizou.
E ela — a loja — está sempre vazia.
Talvez as pessoas entrem igual entravam nas escadas com números grandes na Lapa (bordel).
Olhando pros dois lados pra ver se alguém está vendo. E subiam a escada correndo.
Pode ser impressão minha, mas parece que a paleta de cores da loja é de um vermelho infernal.
Eu sinto até frio na espinha ao passar. E o dono está sempre na soleira da porta. Com um olhar sinistro.
Curiosamente, também às vezes eu passo numa loja que tem um letreiro neon.
Tipo igual aqueles de Las Vegas escritos “XXX”. Só que da Shopee.
Mas nesse está escrito Sexy Shop.
Na frente da loja parece uma loja normal de roupa.
Mas esse letreiro indica que dentro deve ter uma porta secreta.
Tipo aquelas de locadora dos anos 90.
Que escondiam os filmes adultos.
E que, quando eu era criança, quando alugava minhas fitas de Mega Drive, sempre dava uma pequena abertura sem ninguém ver na cortina secreta.
Gravando cada segundo do que meus olhos avistavam. Claro.
Não por interesse de ordem erótica. Mas só porque sempre fui muito curioso desde tenra idade.
Talvez meu interesse fosse mais anatômico. Com objetivo científico mesmo.
Porque, afinal, até Freud admite um período de latência.