NIETZSCHE JAMAIS APOIARIA O NAZISMO

É sabido como Nietzsche sofreu da apropriação indevida das suas ideias devido à má compreensão da sua filosofia mais poética e pela revisão da sua irmã, de tradição cristã evangélica, mas não obstante antissemita, de mudar a sua obra para colaborar com o Reich que daria lugar ao primeiro-ministro Adolf Hitler.
Depois que ele perdeu a consciência e principalmente morreu, ela passou a “administrar” e distorcer a obra do filósofo.
Hitler tem diversas passagens que citam Nietzsche e há algumas apropriações indevidas na sua autobiografia, onde ele destila suas teses abjetas chamada Mein Kampf, como a superioridade eugênica do povo ariano.
Quando ele mesmo, Hitler, era austríaco e não era nem um alemão que a gente chamaria de alemão aqui no Brasil.
Nietzsche, em sua autobiografia Ecce Homo, diz que ele mesmo era polonês.
Se declara contra os antissemitas e nem se diz alemão.
Ele se declara como apolítico e apátrida.
E seu alter ego Zaratustra é um andarilho sem país.
Ele, que é o filósofo contra o ressentimento e o espírito de vingança, veria no ressentimento de Hitler fraqueza.
Ao contrário da essência de vontade de poder, no exemplo da figura de Napoleão, que quer expandir não eliminando o outro, mas expandindo sua própria potência.
Porém, se até eu sofro de interpretações indevidas do que escrevo, quanto mais Nietzsche.
Como diz Elis Regina: “Eu dou o tiro, mas quem mata é Deus.”
Que nós não somos responsáveis pelas consequências que nossas obras terão depois de publicadas.
Como diz Roland Barthes, depois de concluída, a obra pertence ao público e não mais ao artista.
Ora, acho idiota quem diz: “O que será que determinado artista quis dizer com essa obra?”
Porque não somos deuses para ler a alma e intenção dos outros.
E só cabe a nós analisar e interpretar o que de fato ele fez e escreveu, e não “sua intenção”.
Igual aquele recantista que, de todas as coisas boas que disse sobre ele, filtrou só o suposto ataque sem identificar a ironia.
E diz que ele mudou.
Que antes ele era bom porque a sociedade quis assim, mas hoje ele está sozinho e quer ser “mais”.
Quer ser ele mesmo.
Ora, isso é uma idiotice.
Já que nossa própria opinião sobre nós mesmos importa pouco.
Sabemos sobre nós pelo espelho que a sociedade reflete da nossa imagem.
O elogio mais vazio é o autoelogio.
E uma obra só vale quando alguém reconhece o valor dela, e não por próprio mérito imanente.
Quando uma obra mantém-se interna, ela é só solilóquio vazio.
Monólogo niilista.
Quando não apenas delírio.
Em outras palavras mais poéticas: se Shakespeare não tivesse transformado a história de Hamlet em peça, o príncipe só seria mais um louco.
Como ele virou arte, tornou-se um gênio.
O gênio é um louco que soube transformar seu delírio em arte.
E a filosofia de Nietzsche é essa loucura artística.
