QUAL SALÁRIO DAVE LE DAVE (euzinho) MERECE?

Etimologicamente, salário deriva de sal.
Acreditem se quiser: ele já foi raro e, portanto, usado como moeda de troca de mercadorias.
A minha vó deveria ser milionária pelo excesso de tempero que gostava de colocar na comida.
Mas qual salário, no sentido moderno de remuneração, eu mereceria por tudo que faço e pelo imperativo categórico kantiano dos resultados positivos que minhas ações geram na humanidade?
Ora, essa reflexão é a razão pela qual eu jamais cobrarei pelos meus textos.
Pois, se eu fosse cobrar pelo que valem, vocês não seriam capazes de me pagar.
A não ser que fossem Vorcaro ou Ciro Nogueira antes da prisão.
Eu sou mais ou menos como a Grécia. Endividada atualmente.
Mas, se fosse cobrar royalties por todas as contribuições que deu para a humanidade — da filosofia ao teatro, da comédia ao estudo das leis —, a humanidade estaria em débito eterno, enquanto a Grécia seria a nação mais opulenta jamais vista.
Além do mais, eu contribuo muito mais para a sociedade sem receber nada e não pagando imposto ou mesmo sendo útil ao mercado capitalista.
Apenas pelo exemplo contraditório de uma outra maneira de viver muito mais saudável do que a desejada pelo “mercado”.
Nessa minha tentativa justamente de viver cada vez mais à moda da Grécia Antiga, na qual reflexão, atividade física, beleza e artes têm mais importância do que bens materiais.
Não obstante, Grécia é época da fidalguia e opulência.
Do espírito aristocrático de nobreza.
Que não tem a ver com dinheiro, mas sim com uma atitude nobre e estoicamente heroica diante dos problemas e acasos inerentes à vida.
O maior presente que eu poderia dar para minha mãe no último domingo ou para meu sobrinho não é um presente material, mas simplesmente viver como vivo. Ser quem eu sou.
Contraditoriamente, isto custa dinheiro.
Como sabemos, o tempo é o bem mais precioso na sociedade do imediato e no mercado que sequestra nosso tempo através das instituições.
A reflexão e a consciência de até que ponto eu quero ou vale a pena essa troca deveriam ser o ponto de partida para qualquer vida ética.
No sentido, mais uma vez, grego.
Que professava sobre qual é a vida boa, a vida bem vivida e, portanto, a mais verdadeira.
