A "GROSSERIA" É MAIS HUMANA E HONESTA QUE O SILÊNCIO

“Aos que silenciam falta-lhes quase sempre finura e cortesia do coração; silenciar é uma objeção, engolir as coisas produz necessariamente mau caráter — estraga inclusive o estômago. Todos os calados são dispépticos.” — Nietzsche
Ora, só guarda as coisas para si quem é incapaz de responder.
Quem cala não apenas consente, mas também produz a prova da sua impotência.
Como diz Ovídio sobre os inimigos de César, que fugiam para sair vencedores da batalha, da mesma forma quem cala, cala como maneira de conseguir a vitória pela fuga covarde do silêncio.
O que tem valor não precisa ser demonstrado.
Mas o que não tem é denunciado pelo silêncio.
Algo de valor sempre se evidencia pela sua materialidade, pela prova inconteste do seu valor, que não necessita nem da afirmação de um elogio mentiroso para se provar, porque possui valor intrínseco a si mesmo.
Uma verdade só chega até quem tem ouvidos delicados, enquanto uma mentira é tenazmente pegajosa para aqueles que mantêm-se em silêncio.
Ora, só permanece em silêncio quem não tem nada a dizer e nem força para se defender, nem com uma grosseria.
Então o silêncio produz quase sempre o maior dos males: o ressentimento.
Que pode ser definido como a vontade de vingança sem possuir o poder e a capacidade para tal.
Então se remoem essas vinganças interiormente.
E é esse sentimento que produz todas essas alterações fisiológicas desagradáveis às quais Nietzsche se refere, peculiares em organismos malogrados.
As teses do nazismo, do ressentimento contra imigrantes, ódio contra as mulheres, medo de roubarem nossos empregos pela IA ou qualquer outra coisa, são fruto do ressentimento.
De quem remoía um sentimento negativo e silencioso por muito tempo.
E, quando essa doença do silêncio irrompe, paradoxalmente ela é barulhenta: em forma de violência, de sangue, como os casos de ataques de serial killers em massa nos EUA.
Tentando chamar atenção não pela criação de uma obra ou de algo belo, mas simplesmente pelo silêncio do ressentimento amargurado que produziu esse estrondo da violência resignada.
Diferentemente do silêncio afastado do barulho da multidão, que esse sim não nasce do ressentimento, mas como instinto e condição do criador para gerar algo novo.
Esse silêncio não nasce do remorso ou da falta de capacidade de resposta.
Mas sim pela condição adequada para que algo novo nasça.
É um silêncio criador, ameno, pacato.
É o silêncio do final da peça de Hamlet: “O resto é silêncio.”
Agora, o silêncio ressentido de quem não tem nada a dizer é sempre barulhento e violento.
