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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

COMO FALAR PRA GATA QUE NÃO GOSTO DE CAETANO VELOSO?

 


 


 

(Vinheta dramática estilo Saturday Night Live. Saxofone sofisticado. Corte seco.)

 

CENA 1 — APARTAMENTO DE CLARA

Close numa vitrola. Barulho da agulha.

 

Começa a tocar:

 

“Gosto do Pessoa na pessoa

Da rosa no Rosa

E sei que a poesia está para a prosa

Assim como o amor está para a amizade…”

 


 

NARRADOR:

Seguindo a tradição criada por Stendhal, narraremos agora os pensamentos mais íntimos do protagonista ao ouvir Caetano Veloso pela primeira vez naquela noite.

 

EU (pensamento interno):

Eu queria tirar a roupa dessa garota com o mesmo ímpeto com que quero tirar esse disco da vitrola. Poderíamos estar fazendo amor. Mas estamos escutando Caetano.
 

Como explicar, de maneira polida — e ainda preservando o erotismo — que eu abomino isso?

 


 

CENA 2 — TENSÃO CULTURAL

 

EU:

Coração… essa letra é linda, né?

Caetano é um grande letrista.

Ele deveria escrever poesias e romances, não acha?

 


 

CLARA:

Ele é genial.

 

EU:

Sim… até começar a colocar melodia e música na poesia…

 

(Silêncio.)

 

CLARA:

Como assim?

 

EU:

Essa música não é exatamente agradável de escutar.

Não é rap.

Não é poesia.

Não é literatura. Acho que ele deveria focar no que faz bem.
 

Eu sei que ele é da sua terra…

mas por que não colocar Camisa de Vênus, Marcelo Nova… alguma coisa assim?
 

Tipo:

quando eu leio, eu quero ler.

Quando faço amor, eu quero só fazer amor.

Quando escuto música, eu quero escutar música.
 

Não quero ter simultaneamente uma experiência musical, literária e existencial.

 

 

CLARA:

Você tá falando sério?

 

EU:

Seríssimo.

 

Pra mim, a verdadeira MPB popular é Anitta, Iza, aqueles MCs presos…
 

A Tropicália é elitista.

É justamente o contrário de popular.

 

CLARA:

Você é educadamente desagradável e irritante. Vou colocar outra coisa.

 

(Ela troca o disco.)

 

Começa a tocar Gilberto Gil.

 

EU:

Quer saber, coração…

acho que hoje eu tô a fim de escutar Caetano mesmo.

 

Clara sorri.

 

Barulho da vitrola.

 

“Alguma coisa acontece no meu coração

Que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João…”

 

TRANSAMOS. Corte seco.

 

FIM

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 09/05/2026
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