COMO FALAR PRA GATA QUE NÃO GOSTO DE CAETANO VELOSO?

(Vinheta dramática estilo Saturday Night Live. Saxofone sofisticado. Corte seco.)
Close numa vitrola. Barulho da agulha.
Começa a tocar:
“Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade…”
Seguindo a tradição criada por Stendhal, narraremos agora os pensamentos mais íntimos do protagonista ao ouvir Caetano Veloso pela primeira vez naquela noite.
Eu queria tirar a roupa dessa garota com o mesmo ímpeto com que quero tirar esse disco da vitrola. Poderíamos estar fazendo amor. Mas estamos escutando Caetano.
Como explicar, de maneira polida — e ainda preservando o erotismo — que eu abomino isso?
Coração… essa letra é linda, né?
Caetano é um grande letrista.
Ele deveria escrever poesias e romances, não acha?
Ele é genial.
Sim… até começar a colocar melodia e música na poesia…
(Silêncio.)
Como assim?
Essa música não é exatamente agradável de escutar.
Não é rap.
Não é poesia.
Não é literatura. Acho que ele deveria focar no que faz bem.
Eu sei que ele é da sua terra…
mas por que não colocar Camisa de Vênus, Marcelo Nova… alguma coisa assim?
Tipo:
quando eu leio, eu quero ler.
Quando faço amor, eu quero só fazer amor.
Quando escuto música, eu quero escutar música.
Não quero ter simultaneamente uma experiência musical, literária e existencial.
Você tá falando sério?
Seríssimo.
Pra mim, a verdadeira MPB popular é Anitta, Iza, aqueles MCs presos…
A Tropicália é elitista.
É justamente o contrário de popular.
Você é educadamente desagradável e irritante. Vou colocar outra coisa.
(Ela troca o disco.)
Começa a tocar Gilberto Gil.
Quer saber, coração…
acho que hoje eu tô a fim de escutar Caetano mesmo.
Clara sorri.
Barulho da vitrola.
“Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João…”
TRANSAMOS. Corte seco.
FIM