“RESSACA DE CARALHO” É DIFERENTE DE “RESSACA DO CARALHO”

Ouvi metade da grande entrevista do jornalista inglês que mora desde 94 no Brasil, o brilhante Tim Vickery, ao Charla Podcast, que foi uma aula de sociologia.
Em tempos de podcasts que falam três horas sobre nada, como dá júbilo e regozijo ver alguém com conteúdo a dizer sobre algo que a gente gosta — como futebol — sempre indo além das quatro linhas e do senso comum, com uma visão filosófica e antropológica.
Mas, apesar de muito tempo no Brasil, ele ainda escorrega no português.
Ou, nesse caso, escorregou no “caralho” brasileiro.
Ele, falando sobre quando recebeu a notícia da morte de Margaret Thatcher — cuja “mão de ferro” muitos romantizam como causa do fim da violência dos hooligans, quando, na verdade, foi apenas consequência de medidas do próprio governo e de um Estado de repressão policialesco —, disse que estava com uma “ressaca de caralho”.
Algo mais ou menos como atribuir o fim da escravidão no Brasil à Princesa Isabel, como se a Lei Áurea fosse causa, e não consequência de um processo histórico.
Ora, aqui “caralho” funciona como um adjunto adnominal — um substantivo que especifica a origem de outro substantivo: “ressaca”.
Ou seja, ele estaria de ressaca após — semanticamente — uma noite... intensa demais.
Algo quase rodrigueano, como quando Nelson Rodrigues falava de “caralhinhos na parede”. Mas sem ressaca.
Já “ressaca do caralho” é outra coisa.
Aqui, trata-se de uma intensificação.
Um adjunto que não indica origem, mas grau.
Ou seja: uma ressaca muito forte.
Agora cabe a pergunta:
ele comemorou a morte de Margaret Thatcher como?
Passivamente…
ou ativamente bebendo?
