A HISTÓRIA DE “SMELLS LIKE TEEN SPIRIT”, DO NIRVANA

Kurt Cobain era muito amigo da líder e vocalista da banda Le Tigre, muito conhecida pela música Deceptacon. Se você não escutou, tem que escutar.
Uma banda de electrorock ligada ao feminismo e ao movimento LGBT.
Certo dia, talvez lá em Seattle, fazendo as coisas que eles faziam — sei lá, fumando, usando algum baseado ou qualquer outra substância —, Kathleen Hanna disse que Kurt Cobain cheirava como o desodorante “Teen Spirit”.
Imagine o cheiro corporal de um roqueiro: cabelo ensaboado, substâncias ilícitas no corpo, cigarro e ainda um desodorante vagabundo…
Kurt Cobain, provavelmente chapado, deve ter achado tão engraçado que resolveu batizar sua música mais famosa como Smells Like Teen Spirit.
Na tradução: “cheira a Teen Spirit”.
Mas que também pode funcionar como uma licença poética para alguém com espírito jovem.
Ironicamente, para quem morreu com 26 anos, sempre foi jovem, né…
Eu reescutei o Nevermind e reafirmei minha opinião: é muito supervalorizado. O disco é uma barulheira só.
Aliás, o livro do Barcinski, Barulho, é muito pertinente.
Ele fala mal do Foo Fighters, mas Dave Grohl era baterista do Nirvana — e as músicas que fizeram sucesso do Nirvana são justamente as que mais se aproximam do som do Foo Fighters.
E eu acho que o caminho inevitável do Nirvana era virar o que virou o Foo Fighters. Ou pior… Pearl Jam. Ou pior ainda… Soundgarden. Ou seja: totalmente esquecíveis e irrelevantes.
Hoje eu também escutei o primeiro e o segundo disco dos Pixies, Come On Pilgrim/Surfer Rosa e Doolittle.
É uma pedrada — mas com qualidade incomparável ao Nirvana. Muito superior. Muito mais influente.
O modo como o Black Francis transita do vocal sussurrado para o gritado — fórmula que ele praticamente inventou —, intercalado pelo backing vocal da Kim Deal e pela guitarra precisa de Joey Santiago.
Sem contar as letras: maduras, inteligentes, perturbadoras.
O que faz as do Nirvana parecerem escritas pela banda de novela Malhação.
O melhor caminho para se conhecer uma obra é por si mesmo — não pela unanimidade. A curadoria é útil para apresentar, mas nada substitui a sua própria experiência.
Platão dizia que os juízos do intelecto são superiores aos do corpo.
Porque quem domina o pensamento é capaz de avaliar todos os outros prazeres sensoriais.
Por isso, o mundo sensível deve sempre passar pela peneira do nosso julgamento.
