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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

AS MAIORES MENTIRAS DA LITERATURA DA HISTÓRIA

 


 


 

Não, não quero falar de Paulo Coelho e afins. E nem de textos propriamente apócrifos, mas, mais particularmente, daquelas mentiras que, de tanto serem repetidas, passam a funcionar como verdade.

 

Por exemplo:

 

MAQUIAVEL

“Os fins justificam os meios”, Nicolau Maquiavel, O Príncipe.

Na verdade, Maquiavel nunca disse isso literalmente. Trata-se de uma inferência vulgar: o povo, ao observar as consequências de uma medida de governo, julga o resultado e simplesmente deixa de perguntar de onde vieram os meios — como se o efeito bastasse para absolver a causa.

 


 

DOSTOIÉVSKI

“Se Deus não existe, tudo é permitido…”

A frase, assim como circula, não aparece em Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski. O que existe é uma pressuposição possível dentro do pensamento de Ivan Karamázov — o mentor intelectual do parricídio.

Não é uma afirmação, mas uma tensão.

Ainda assim, a cultura prefere a fórmula ao conflito.

 


 

NIETZSCHE

“Deus está morto”, Friedrich Nietzsche.

Sim, a frase aparece — em A Gaia Ciência e em Assim Falou Zaratustra. Mas nunca como slogan.

 

Em Zaratustra, ela surge quando ele encontra um eremita que ainda louva a Deus com cânticos.

A constatação é quase irônica: não é possível que ele viva tão afastado dos homens a ponto de ainda não saber que Deus está morto. Em A Gaia Ciência, no episódio do homem louco — inspirado em Diógenes, o Cínico, que, com uma lanterna, procurava um homem honesto —, este, porém, sai berrando por Deus e grita: “Deus está morto. E fomos nós que o matamos.” Refere-se ao modo de viver atual, pouco cristão, inclusive da própria Igreja, que teria “matado” Deus.

Ou seja: não há celebração — há diagnóstico.

 


 

SÓCRATES

”Conhece-te a ti mesmo”,
Atribuída a Sócrates, mas não é dele. A máxima estava inscrita no templo de Delfos — uma injunção religiosa antes de se tornar princípio filosófico. Sócrates a incorpora, a radicaliza, mas não a cria. Ainda assim, a tradição prefere um autor a um templo — um nome a uma inscrição.

 



HOBBES

“O homem é o lobo do homem”, Thomas Hobbes.

A frase é repetida como se fosse uma definição essencial da natureza humana. Mas, em Leviatã, trata-se da descrição de um estado de natureza — uma hipótese sem Estado, não uma sentença definitiva sobre o homem em sociedade.

 


 

SARTRE

“O inferno são os outros”, Jean-Paul Sartre.

Retirada de Entre Quatro Paredes, a frase virou sinônimo de antipatia social.

Mas Sartre não fala de incômodo cotidiano — fala do olhar do outro como prisão, como aquilo que fixa e reduz o sujeito.

 


 

ROUSSEAU

“O homem nasce bom, a sociedade o corrompe”, Jean-Jacques Rousseau.

Nunca dita dessa forma.

É uma simplificação de Emílio ou Da Educação, que transforma uma teoria complexa sobre formação e natureza humana em um slogan pedagógico conveniente.

 


 

MARX

“A religião é o ópio do povo”, Karl Marx.

A frase existe, em Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, mas quase sempre mutilada.

 

Esquece-se o restante: “suspiro da criatura oprimida, coração de um mundo sem coração”.

 

O que vira ataque, no texto é também diagnóstico de sofrimento.

 


 

PADRÃO

O padrão é sempre o mesmo:Uma obra complexa é comprimida.

Uma tensão vira certeza.  Um problema vira slogan.

 


 

EPÍLOGO

E assim, pouco a pouco, não é apenas o autor que é traído —

 

é o próprio pensamento que se torna mais fácil, mais rápido… e, inevitavelmente, mais raso.

 

Porque, no fim, talvez a maior mentira não esteja nas frases —

mas na necessidade de que elas existam dessa forma.

 


ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 24/04/2026
Alterado em 25/04/2026
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