“UNIFORME” PRA QUEM NÃO TEM GOSTO!

O uniforme, para algumas pessoas, é uma bênção: resolve o problema burocrático do dia a dia de ter que se vestir.
É só usar aquilo que já foi escolhido por outros.
E que costumam usar, não raro, ainda sujo e sem passar.
Vale nos atermos à etimologia da palavra: uniforme significa uma única forma, padrão, igual.
Ou seja, o uso do uniforme exclui a possibilidade de singularidade — a expressão de uma pessoa através da roupa.
Um dândi veria o uniforme com certo asco e desdém.
E talvez fizesse como Will Smith em Um Maluco no Pedaço, que virava o casaco ao contrário para não ser igual a todos.
Para mim, essa postura expressa a individualidade através da vestimenta e da moda.
Para empresas e grupos, o uniforme funciona muito bem.
Como sabem que a maioria das pessoas não possui gosto próprio, se deixassem que usassem suas próprias roupas, o resultado poderia ser ainda mais assustador.
O uniforme resolve esse problema e deixa todos homogêneos.
Até mesmo no esporte, onde treinadores e atletas usam uniformes de equipe à beira do campo, em vez de trajes civis.
Mas há algo pior do que o uniforme: o mau gosto.
Porque, se for para se vestir como Tite — que parecia um pastor — ou como Dunga em 2010, que colocou uma gravata no lugar do bolso frontal do paletó, com cores escolhidas quase para agredir o olhar, então o uniforme ainda é um alívio.
No futebol, o melhor exemplo está nas camisas de times de várzea.
Supostamente alguém escolheu aquelas estampas personalizadas, mas todas parecem um catálogo de supermercado, de tanta informação visual, com as cores mais chamativas possíveis.
No futebol profissional, as camisas costumam ser mais bonitas.
Mas o fato de tantas pessoas preferirem usar “uniforme” não é apenas pelo sentimento de grupo.
É porque não saberiam se expressar — nem o amor pelo clube, nem a própria identidade — sem ele.
Ontem, fui ao jogo do Palmeiras vestido assim.

E um vendedor tentou me vender uma camiseta falsa, dizendo que eu não entraria no estádio daquele jeito.
Coitado…
Perguntei se ele conhecia Eurico Miranda, histórico presidente do Vasco, que nunca usava a camiseta do clube, porque ele próprio personificava o clube.
O amor ao clube não se demonstra comprando uma camiseta — ainda mais falsa. (Essa última parte eu poupei.)
Deu tela azul no cérebro do coitado.
Depois dessa, talvez tenha até parado de vender camisa e passado a vender pipoca.
