EU NÃO GOSTO DE NIRVANA

Meu irmão diz que só tem cerca de meia dúzia de vídeos no YouTube.
Porque tudo que o algoritmo indica para ele é o mesmo que aparece para mim.
Esse mesmo irmão foi a uma festa do programa Garagem, da antiga Brasil 2000, apresentado por André Barcinski, jornalista de cultura da Folha, conhecido mundialmente por popularizar a obra do Zé do Caixão — o Coffin Joe.
Ali circulava gente de alto nível: Paulo Martins, dos Notícias Populares e do esporte; André Forastieri, da revista Herói e da editora Conrad; Álvaro Pereira Jr., editor do Fantástico e colaborador da Folha Teen.
Barcinski escreveu, no começo dos anos 90, o livro Barulho, sobre a cena do rock underground da década e o surgimento do grunge, com fotos icônicas de Kurt Cobain — como a da capa do relançamento, empunhando a guitarra.
Pois bem.
Um dia, nessa festa, meu irmão ganhou um DVD do Nirvana.
E, como não era muito afeito ao som da banda, jogou o DVD no lixo para não ter o incômodo de levá-lo para casa.
Uma heresia.
Mas o Garagem, que quebrava discos de MPB com uma furadeira, estava ali representado.
Ele apenas encarnou o espírito do programa.
E eu, de certa forma, herdei essa falta de apreço.
Acho Nirvana extremamente supervalorizado.
A música que mais gosto do acústico nem é deles: é de David Bowie, The Man Who Sold the World.
As outras são boas —mas tocaram tanto que ficaram chatas.
Se entram no meu aleatório, eu pulo. Não dá para dizer que gosto de Nirvana. Eu acho que o Nirvana é o Mamona Assassinas do Grunge, se beneficiaram do seu fim abrupto e não sobreviveriam a um segundo álbum.
Meu irmão me exerceu influência musical — mas nem tanto.
Ele é muito fã de The Smiths, tem todas as músicas, lados B, tudo.
Eu gosto dos singles.
E, ainda assim, prefiro a carreira solo do Morrissey — desde que ele não abra a boca.
Ele também gosta muito mais de pós-punk: B-52’s, Duran Duran, Echo & the Bunnymen.
Onde concordamos: New Order e Depeche Mode.
Já eu, talvez por já ter discotecado, gosto muito mais de eletrônica francesa alternativa do que ele.
Mas voltemos a André Barcinski, que além de ter uma filha muito bonita também tem tem um excelente canal no YouTube — e um site de jornalismo cultural que eu assino — onde dá ótimas dicas. Se eu fosse mais inteligente e capitalista, cobraria assinatura no meu também.
Uma delas é a banda independente Angine de Poitrine. Bizarra. Excêntrica. Ou seja: tudo de bom.
Eles surgiram artisticamente na época da pandemia, mas estouraram de forma viral há cerca de duas semanas, em uma apresentação em uma rádio universitária, KEXP. Totalmente orgânico.
O que ainda dá alguma esperança de que as redes sociais possam servir
para divulgar algo bom.
Angine de Poitrine é uma banda de Quebec, Canadá — a parte francesa.
O nome remete a algo como “peito da angina”.
A estética lembra, curiosamente, o teatro grego descrito por Nietzsche em O Nascimento da Tragédia: figuras mascaradas, linguagem incompreensível, teatralidade simbólica.
Eles falam “a língua dos Poitrines”. Visual em preto e branco, com bolas pretas em papel machê.

As músicas são instrumentais, virtuosas, únicas. Sem paralelos claros.
Mas agradam tanto quem gosta de rock progressivo quanto de punk. Ritmo. Harmonia. Dança. Lembra uma mistura de Devo com The Coral, com guitarras à la Gang of Four — Andy Gill. Mas com identidade própria.
O guitarrista toca guitarra e baixo multitonal.
Cria loops, sobrepõe riffs, alterna funções.
O resultado: um único músico soa como vários.
Como se houvesse uma banda inteira no palco. Mais membros do que o Arcade Fire.
Vou colocar uma música na capa do meu site para quem quiser ouvir.
E o link da apresentação —
que já tem mais de 12 milhões de visualizações em apenas duas semanas —
logo abaixo: