NÃO GOSTO DE NUTELLA. MAS SOU NUTELLA.

Quer algo mais Nutella do que não comer Nutella por causa do açúcar
e comer essa pasta alternativa que dura menos de uma semana
e custa essa bagatela?

Mas, pelo menos, eu admito.
Agora há os alunos do colégio em que meu amigo dá aula, da geração anterior à Z, que falam saudosos sobre futebol “raiz”.
“Ah, como era bom antes…” Meu amigo, eles nunca tiveram que ficar no sol para comprar ingresso.
O primeiro jogo a que fui, aos 8 anos de idade, no antigo Palestra, presenciei marginais quebrando ônibus, avenidas alagadas por falta de estrutura, e senti o odor da maconha nas bandeiras de torcida organizada.
Hoje, vejo mulheres e famílias inteiras indo ao estádio como se fosse um programa, algo para ser instagramável.
E eu, faço questão de ficar confortavelmente na primeira fila, como se fosse um teatro, e me vestir como se fosse um.
Na verdade, se os jogadores encenassem o jogo só para mim, não faria a menor diferença.
Estou vendo um jogo decisivo da Premier League: Arsenal e City, pela disputa do título, na mesma semana de um jogo inesquecível da Champions, entre Real e Bayern.
E lá, o que importa é o espetáculo — sobretudo dentro de campo.
Na verdade, depois de assistir esses jogos, eu deveria fazer terapia
para resetar o cérebro aos níveis normais de dopamina, para conseguir voltar a assistir o futebol brasileiro.
Agora vêm ex-jornalistas esportivos, e atuais clubistas, querendo vender a narrativa de que, em outros países, como a Argentina, o futebol vale mais porque a torcida faz baderna, comparece aos estádios.
Ora, na verdade, eles frequentam não por amor, mas por pertencimento de massa, como Reich analisa na psicologia das massas. É efeito manada.
Além do mais, no basquete do interior aqui mesmo no Brasil também se torce igual.
No basquete do Leste Europeu, também.
E no futebol americano, nos Estados Unidos, desde o universitário até a NFL, a torcida lota, canta, tem banda.
E na NFL, onde o nível é mais elevado, a torcida é mais teatral.
Isso quer dizer que amam menos o jogo por serem mais “Nutella”?
Claro que não.
É como Nietzsche explica: o erro clássico de atribuir o efeito à causa errada.
É como dizer que amanhece porque o galo canta.
Qualquer explicação, por mais absurda que seja, parece melhor do que nenhuma, pela sensação de apaziguamento.
É assim que se sustentam muitas religiões, e também as narrativas clubistas e “Nutella” de certos comentaristas esportivos.
