A BELEZA DA MULHER ANDRÓGINA

Orquídea. Sua forma e cor sugerem, curiosamente, ambos os sexos. Seu perfume é doce e decadente — é uma flor tropical do mal.
Delicada e muito cultivada, seu valor está na raridade.
É diferente de qualquer outra flor.
Primeiro, uma explicação tautológica sobre o que não é uma beleza andrógina feminina.
Quer dizer — antes — uma explicação sobre o que significa “explicação tautológica”.
Explicar por tautologia é definir algo pelo que ele não é.
Em outras palavras: numa cesta de bananas e maçãs, as maçãs são aquelas que não são bananas, correto?
E as bananas, as que não são maçãs.
Muito bem…
Uma mulher andrógina bonita, portanto, tautologicamente, não é aquela com corpo hipertrofiado, masculinizado, atlético de academia, com baixo percentual de gordura. Não. Isso é freak show. Aberração fisiológica.
O próprio repúdio do olhar, ao confrontar tal figura, já denuncia o desnível — um desajuste, um corpo que não está em equilíbrio. Os gregos antigos chamavam isso de Hybris, desmedida, que é o equivalente ao nosso pecado para eles. É uma desarmonia em relação ao equilíbrio cósmico, que eles criam perfeito.
A verdadeira beleza andrógina aparece no dândi feminino.
Representada por figuras históricas da moda, como Coco Chanel, que revolucionou a vestimenta ao abandonar vestidos excessivos com cores escalafobéticas, em favor de tons sóbrios — por vezes sombrios — pretos,
linhas limpas, calças sofisticadas, jeans, estrutura.
Ela que, inclusive, instituiu o bronzeado como estética desejável.
O que é mais na moda do que alguém que já nasce com esse dourado natural? Mas divago.
Porque este texto não é sobre mim, mas sobre mulheres igualmente belas.
A beleza andrógina também se manifesta em figuras contemporâneas,
como Nina Barcinski, a quem já elogiei em outras ocasiões.
E agora, talvez com a maioridade, posso fazê-lo com mais eloquência e menos pudor.
A liberdade cultural com que foi criada — no clima praiano de Paraty, somada à influência nova-iorquina de seu pai, e ao trânsito educacional entre Rio e São Paulo, em formação bilíngue — construiu uma personalidade distinta. Que se soma, e amplifica,
sua aparência.
Na foto de perfil, abandona o despojado blasé das camisetas excessivamente masculinas, ou de rock, para um sofisticado mínimo:
uma camiseta Lacoste feminina, de caimento preciso, em verde —
cor que, por razões já conhecidas, dispensa explicação.
Há ali uma delicadeza tenra, jovial, quase como uma George Sand da geração Z.
E como sabem, eu — um dos últimos dos moicanos — ainda levanto a bandeira do baluarte da elegância, da moda, da cultura, da sofisticação.
Representada pelo dandismo inglês, reinterpretado por uma visão francófila, com uma leitura própria, sui generis, da realidade.
Uma visão que sabe valorizar o olhar feminino para o detalhe.
E que reconhece a beleza como algo que se manifesta em tudo o que habita o mundo.
A orquídea é rara, não apenas pela sua beleza, mas pela sua ambiguidade. E é nessa ambiguidade que reside a força da sua singularidade.
