EXISTE FILHA (o) ESPIRITUAL?

Na filosofia, na literatura e espiritualmente, a criança é símbolo de renascimento, de um novo ciclo, de recomeço.
É por isso que, em Assim Falou Zaratustra, nas três metamorfoses do espírito, a última é a criança:
O camelo que suporta, o leão que tem a coragem para mudar, e a criança para recomeçar e criar seus novos valores.
Metaforicamente, essas ideias são representadas no filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, na última cena, em que o bebê sobrevoa a Terra, após o misterioso aerólito preto aparecer em todas as fases da evolução humana. Aquela — o da criança —, que é o super-homem nietzschiano, supercriança, é o última.
Na Bíblia, as crianças já têm passagem cativa no céu, e ai de quem corromper uma delas.
E, na literatura, temos em Ulysses a relação entre Stephen Dedalus e Leopold Bloom, que guarda paralelo com a versão de Ulisses e Telêmaco, só que em uma dimensão exclusivamente espiritual.
Bloom assume um simbolismo paterno: inspira, conduz, faz Stephen simplesmente retomar o caminho de si.
Dessa forma, todos nós, em algum momento da vida, assumimos uma responsabilidade moral. E, evocando o existencialismo, quando decidimos, não decidimos apenas por nós, mas também pelo mundo que pensamos como ideal.
Nessa paternidade simbólica de outras vidas que ainda nascerão, nossas ações no presente têm enorme impacto.
Porque, quem sabe, elas moldarão o futuro dessas vidas ainda inexistentes que virão.
Assumimos, assim, a paternidade simbólica e espiritual de um futuro moral: de uma filha, de um filho que não é nosso.
Graças a Deus.
Mas que minhas ações possam ser tais que, mesmo não sendo meu,
eu possa ser uma boa influência e alguém de quem ela se possa orgulhar.
Faz sentido?