NÓS, HOMENS, NÃO ENTENDEMOS NADA DE MULHER

A verdade é que o ser humano enxerga o mundo através dos próprios olhos.
Deleuze vai além, e diz que os órgãos, individualmente, interpretam o mundo — e pensam — através de suas próprias perspectivas. O olho, pela perspectiva de ver. O ouvido, de ouvir. O nariz, de cheirar. O meu coração, o de te amar…
E a ordem das causas são as ordens das potências ditadas pelas perspectivas dos órgãos.
E o homem, esse órgão ambulante, às vezes é bíceps-homem, um homem-testículo, um pênis-homem; mas, de acordo com potências e afetos, também: um homem-cérebro ou coração-homem.
E, falando em afetos, Paulo Muzy, que é uma espécie de polímata da maromba do século XXI, sem dúvida ama sua esposa, Roberta.
Não há uma live em que ele não faça questão de lembrar a todos disso.
Apesar de fofo, ele enxerga a beleza dela através dos próprios sentidos.
Tanto é que eles são diferentes.
Talvez ele ache que, para ela, seja bonito esse crescimento avantajado dos músculos —
quando, talvez, o “músculo” que importa para ela seja outro
(coração, cérebro, ou…).
Ela, que é franzina, modelo; ele, que se veste sempre de regata e roupa esportiva, talvez fosse ainda mais admirado se trajado com garbo e elegância.
Talvez ela admire — acima dos músculos — seu lado mais sensível e inteligente, características tradicionalmente associadas ao feminino.
A Nilce, do “Cadê a Chave?”, não consegue esconder de ninguém como fica tingida de vermelho quando Leon se esforça, combatendo seu TDAH, ao tentar ler um clássico de 700 páginas, ou ao tentar se vestir diferente de um executivo do Vale do Silício.
E talvez gostasse ainda mais se, além de sua leveza e carisma, ele tivesse elegância, cultura erudita e escrevesse.
Ou mesmo este que vos fala, que, em pensamento, às vezes comete a audácia de imaginar que, se a pessoa que me fez entrar no Recanto das Letras pensasse no homem ideal dos seus sonhos, eu superaria — em muito — esse sonho…
Mas a verdade é que talvez ela preferisse alguém simplesmente carinhoso, fiel, trabalhador… comumente comum.
Não que eu não seja também.
Mas só de imaginar que ela gostaria de algo que eu não sou,
já mostra como não entendemos nada de mulher.
Isso porque sempre analisamos o feminino a partir de um olhar individualmente masculino.
