RECANTO DAS LETRAS NA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Quem é — felizmente — um pouco mais velho deve lembrar de um dos primeiros vídeos virais da internet, no qual Ronaldinho Gaúcho aparece chutando a bola no travessão diversas vezes, sem deixá-la cair no chão.
Se fosse hoje, talvez dissessem que foi fruto de inteligência artificial. Isso, claro, se não fosse o Bruxo…
Hoje, vemos vídeos de IA tão bem feitos que fica difícil dizer se são reais ou gerados artificialmente.
E esse será um grande desafio — especialmente nas próximas eleições, com um dos lados historicamente utilizando o artifício de disseminar notícias falsas, ainda mais com a facilidade da IA generativa.
O impacto que a IA terá na sociedade será comparável ao da indústria automobilística ou dos alimentos ultraprocessados.
No mesmo passo em que reduz distâncias e permite que alguns se adaptem e evoluam, também cria indivíduos mais preguiçosos e obesos — como já se observou, de forma mais evidente, nos Estados Unidos.
A inteligência artificial já está causando um impacto desadaptativo na evolução humana.
Vemos pessoas delegando sua capacidade de pensar e até de executar para a IA.
Uma coisa é otimizar tempo com tecnologia — como usar computador, celular, ou mesmo IA para revisar um texto, esclarecer dúvidas de pontuação, ortografia ou gramática.
Outra, completamente diferente, é terceirizar o pensamento.
Isso, sem dúvida, produzirá indivíduos cognitivamente mais preguiçosos.
Enquanto outros, ao contrário, usarão a IA para potencializar sua criatividade, velocidade e curva de aprendizado.
Na proliferação de produções feitas por IA, caberá aos humanos diferenciar o trabalho criativo e humano do que é produção artificial.
A “vovozinha do WhatsApp” terá mais dificuldade e continuará propagando fake news; o indivíduo de extrema direita, por burrice somada à má-fé, também. Mas a capacidade de avaliar e estabelecer valor é uma das competências mais eminentemente humanas.
No Recanto das Letras, isso já pode ser observado. O famigerado e excêntrico recantista “Fator Entorpecido”, por exemplo, é claramente alguém que passou a escrever o que não sabe, em comparação ao seu conteúdo anterior.
Mas a pergunta permanece: será que, para a sociedade, era melhor aqueles textos antigos, cheios de erros e delírios, ou esses textos mais coerentes — porém artificiais — gerados por IA?
Essa é uma questão para a inteligência humana avaliar.
EPÍLOGO
Porque pior do que usar IA é glamorizar a burrice humana.
É orgulhar-se da própria falta de conteúdo, dos erros de gramática e de português, em vez de estudar, se corrigir, aprimorar-se e evoluir.
Essa, sim, é uma burrice legitimamente humana.
