
Esses discursos sobre gênero, classe e pautas woke só servem para uma coisa: separar os homens.
As minorias deveriam trabalhar — prosperar — para não acabar como eu, que, com mais de 65 anos, preciso viver dentro de uma armadura enferrujada, sobrevivendo do polimento de espadas alheias (interpretem como quiserem). Trabalho tanto para subsistir que não me resta tempo para estudar ou pensar.
O importante é trabalhar. Trabalhar para movimentar a roda da economia, gerar riqueza — e permitir que meu patrão viaje para a Flórida. E, se o Brasil piorar, apesar de todo o seu patriotismo, ele pode simplesmente se mudar para lá — algo que eu jamais conseguirei. Não por falta de capacidade ou oportunidade, claro, mas porque não trabalhei o suficiente como ele. Ainda que ninguém saiba muito bem de onde veio a fortuna dele: se do pai, do avô… ou de algum antepassado senhor de engenho.
Mas os pobres — em vez de trabalhar — preferem promover orgias e apostar.
E o governo, em vez de ensinar a pescar, entrega o peixe, formando seu “curral eleitoral” por meio do cadastro em programas sociais.
Ora, o mesmo tempo que gastam fazendo esse cadastro poderia ser usado para elaborar um currículo. Não saber falar bem ou não ter computador em casa não é desculpa: é falta de mérito.
Felizmente, a população trabalhadora — ocupada demais para pensar ou estudar, como eu — já resolveu os problemas estruturais do mundo em quatro passos simples:
demonizar Paulo Freire, chamar qualquer adversário de comunista, reduzir qualquer argumento a “pauta woke”, e defender a distribuição de armas — quem sabe já no nascimento, junto com o corte do cordão umbilical, para que o bebê aprenda desde cedo a se defender.
Sou, portanto, a favor da meritocracia e da igualdade entre os homens — desde que ninguém roube meu emprego de polidor de espadas nem devore, em sentido antropofágico, aquilo que considero meu.
