E SE VOCÊ ESTIVER MORTO?

Se viver não é o mesmo que estar vivo, então, talvez, também não seja o mesmo morrer e estar morto. Presume-se, portanto, que é possível — mesmo respirando — já estar morto.
Há uma morte que antecede o ato de morrer.
Diz-se do jogador que morre duas vezes: quando morre e quando se aposenta. O mesmo vale para o escritor: quando deixa de escrever ou quando deixa esta vida. Mas talvez a primeira morte seja mais discreta e mais frequente.
Há os que escrevem morrendo.
Como aquele que, em vez de pena, escreve com uma esPÁda.
Diz ter 65 anos, mas insiste sempre nos mesmos temas — com o mesmo cheiro de morte e naftalina, a mesma repetição, a mesma rigidez. E o mais preocupante: nada aprendeu e talvez seja tarde...
Há nisso uma espécie de incoerência à maneira de Martin Heidegger: critica-se o mundo da técnica como um mundo esvaziado de valores superiores, mas, ao mesmo tempo, colabora-se com formas históricas de autoritarismo, como ele, que colaborou com o nazismo. Julga-se o autoritarismo alheio enquanto se tenta impor o próprio — muitas vezes amparado por uma lógica primitiva, próxima da lei de talião, da pólvora, do obscurantismo.
Vive-se muito — mas morre-se ainda mais. Porque não se vive a cultura: apenas se repete, se requenta, se recicla o já dito.
E há, ainda, a tentação solipsista — herança de George Berkeley — segundo a qual a única realidade existente é a mente, e o mundo não passa de uma projeção, como um filme.
Mas então surge a questão inevitável: como posso ter certeza de que o meu filme não é, na verdade, o filme de outro?
Ou pior — que eu não sou apenas um personagem secundário na projeção de alguém que, este sim, talvez ainda esteja vivo?
