
Charlie Brown o encontrou atrás de um poleiro de galinhas — assustado — e decidiu levá-lo para casa.
Linus van Pelt, por um instante, chegou a abandonar seu inseparável cobertor para aconselhá-lo na compra. Mas logo se revelou o paradoxo: o cachorro já tinha dono.
Comprou-se, portanto, um cachorro já comprado.
Mas isso nunca foi realmente um problema. Afinal, pai — mesmo de pet, mesmo nas histórias em quadrinhos — é quem cria.
Havia, desde o início, algo de indomável naquele animal. Um excesso de personalidade que não se explicava pela origem. Ele já veio batizado de Snoopy — e Charlie Brown, com a lucidez dos que reconhecem o inevitável, decidiu não interferir. Convenhamos: dificilmente haveria nome melhor.
Charlie Brown — ou Peanuts, miduim, para os mais íntimos —, foi ele quem arrumou a casinha, escolheu o cobertor e ofereceu abrigo.
Mas esse estranho cachorro, por razões que talvez escapem à lógica, prefere dormir sobre o telhado, jamais dentro. Como se recusasse, silenciosamente, qualquer forma de domesticação plena.
Às vezes recebe seu melhor amigo, Woodstock. Conversam — sempre do lado de fora. Sempre à margem.
Com o tempo, essa figura foi revelando suas múltiplas máscaras: jogador de beisebol, amante improvisado — sobretudo com Lucy van Pelt —, mas, acima de tudo, escritor.
E talvez seja isso que mais o define.
Uma personagem estranha — profundamente estranha — e, por isso mesmo, admirável. Amável à sua maneira. Cercada de gente, mas essencialmente só. Uma solidão que não é carência, mas condição de sua introspecção artística e literária.
Não se pode sequer atribuir isso à solidão estrutural de um filho único. Snoopy tem irmãos — vários. Entre eles, o mais conhecido talvez seja Spike: uma espécie de versão sua, mas de bigode e chapéu, vivendo no deserto do Texas.
Certa vez, Spike, conversando com um cacto, disse que gostava de pescar — e perguntou se ele já havia capturado algum peixe 🌵.
O cacto, naturalmente, permaneceu em silêncio.
Mas, interpretando a abertura de seus “braços” como medida, Spike concluiu o tamanho da captura e respondeu, incrédulo:
— Não exagera.
A peculiaridade, ao que tudo indica, vem de família.
E talvez seja exatamente por isso que Snoopy funcione tão bem para mim — quase como um alter ego, um emblema silencioso daquilo que tento fazer no Dave Le Dave:
habitar o mundo com um leve desajuste —
mas com estilo suficiente para transformar isso em forma.