COMO A CULTURA SE "IMPREGNOU" NA MINHA VIDA!

Pierrot le Fou, de Godard, pra mim, não é apenas um filme.
É um beijo na boca da arte, da cultura.
É o ponto de intersecção entre um David diletante de arte e cultura e outro cuja arte e cultura fazem parte da própria vida.
Nos anos 60, jovens parisienses queriam ser como os personagens de Godard:
mobiliar seus apartamentos com a paleta de seus filmes,
falar e lidar com cultura da mesma forma que seus personagens.
A Chanel fez um vestido com as cores clássicas do filme.
E o auge artístico está em Pierrot le Fou:
os lindos enquadramentos, a elipse, a narrativa fragmentada,
a junção de literatura, pintura, música, cinema —
como a sétima arte pode abarcar todas as outras.
Não se trata de absolute cinema ou cinema total.
E sim de arte total. Cultura total.
Foi após assistir que tive vontade de saber mais sobre literatura.
Foi quando li James Joyce.
Esses romances disruptivos na linguagem.
E, principalmente, quando tive vontade de entender filosofia, psicologia, antropologia — as humanidades em geral.
Naquela época, eu tinha a percepção de que era muito ignorante diante de tudo que havia para saber.
Após mais de uma década de estudo, percebi que era ainda mais ignorante do que imaginei.
E estou ainda mais ignorante sobre o mundo de maneira geral.
“Você nunca vai saber”, como diz Paulo Leminski. E isso é conhecimento.
Eu consigo absorver tantas referências porque elas fazem parte da minha vida.
Eu não estudo para passar no vestibular.
A cultura e a arte são a própria vida.
Separá-las de mim é como separar um órgão vital — como cérebro ou pulmões. Inconcebível.
Mas, como se retribui mal o mestre tornando-se sempre seu discípulo, como ensinou Nietzsche, eu sou grande fã e tenho muita influência de Godard — mas também sou um dos seus maiores críticos.
Principalmente da fase politizada do seu cinema.
Tomando, totalmente, o partido de Truffaut na polêmica que separou os dois principais nomes da Nouvelle Vague.
E muitas vezes me vi dizendo que prefiro Truffaut entre os dois.
RITUAL
Pelo menos uma vez por ano, vejo Pierrot le Fou, assim como vejo 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Kubrick.
Dizem que a ida do homem à Lua foi encenada por Kubrick, e, em troca, a NASA deu o equipamento para ele filmar Barry Lyndon.
Ora, se isso foi verdade, esse é o melhor exemplo de utilitarismo de John Stuart Mill e Jeremy Bentham: o que importa é a felicidade do maior número nas consequências das ações. Porque, com certeza, essa foi uma ótima troca.
A técnica e o engenho com que Kubrick filma em 1969 são inacreditáveis,
além do teor filosófico que presta homenagem à obra mais importante pra mim: Assim Falou Zaratustra.
E, pegando o gancho para falar de Nietzsche, nem preciso dizer como o pensamento do bigodudo mais famoso da filosofia tem similaridade com a maneira estética de eu conceber a vida.
Isso aparece num livro que não costuma ser levado tão a sério — porque Nietzsche já estava à beira da loucura —, que é Ecce Homo.
Onde surge o conceito de grande saúde:
o estilo de vida que leva à saúde,
e como o meio ambiente afeta nossa fisiologia e nossa potência de existir. E tudo isso culmina, posteriormente, na minha descoberta de Deleuze e sua filosofia da DIFERENÇA.
Bom, esse texto é como Pierrot le Fou:
uma grande homenagem à cultura e aos meus professores.
Como a música do Daft Punk, Teachers, em que eles citam nominalmente vários de seus mestres.
Ou como na faixa Destroy Rock & Roll, do Mylo, que está agora ilustrando meu site para quem quiser escutar, em que ele transforma em música eletrônica os nomes mais importantes da música. Pois eu transformei minhas referências em texto.
E, como diz Ferreira Gullar:
a arte existe porque a vida não basta.