
Blow-Up: Depois Daquele Beijo, de Michelangelo Antonioni (1966), é uma obra-prima do cinema — tanto na forma quanto no conteúdo. Não por acaso, o site cultural e humorístico Dave Le Dave o elegeu entre os dez maiores filmes de todos os tempos.
Um thriller erótico: um fotógrafo, ao registrar imagens sensuais de garotas em uma quadra de tênis, acaba, quase por acidente, descobrindo um assassinato ao revelar suas fotografias.
Há algo de perturbador nessa ideia — a de que o real, quando ampliado, trai a aparência.
Tive essa mesma sensação de descoberta inesperada ao “revelar” algumas fotos que tirei.
Hoje, já não há químicos nem papéis — apenas edição, luz, contraste. Ainda assim, o efeito permanece: revelar é sempre expor algo que estava oculto.
E desde que Adoniran Barbosa escreveu que um olhar pode matar mais do que flechada, veneno ou peixeira de malandro, não restam dúvidas de que aquela imagem também continha um crime.
A fotografia revelou um assassinato.
Um assassinato silencioso — desses que não deixam corpo, apenas ausência.
Afinal, como sugeria Alfred Hitchcock, cenas de desejo podem ser filmadas como assassinatos, e assassinatos como cenas de amor. Tudo depende do enquadramento, do tempo, da intenção do olhar.
Sem dúvida, saí morto daquela revelação.
Morto pelo impacto de um olhar — “indiscreto”, para mantermos a fidelidade às referências —
mas, como em todo grande cinema, uma morte que é também uma forma extrema de atenção:
o instante em que já não se pode mais escapar daquilo que se viu.