COMO CRIAR FILHOS LEITORES E INTELIGENTES

Se os pais forem leitores e inteligentes, isso nem deveria ser uma preocupação — já que, como é amplamente sabido, as crianças simplesmente copiam os pais.
Mas, como meus pais talvez foram inteligentes, vou dar uma resposta mais inteligente, científica e sociológica que esta.
CAMPO SOCIAL E HABITUS
O sociólogo Pierre Bourdieu cunhou os conceitos de campo social e habitus, que estão umbilicalmente ligados — e isso vai ficar claro com os exemplos que irei dar a seguir.
Começando pelos torcedores organizados, como os da Gaviões da Fiel, que acossaram jogadores do Corinthians ao saírem do seu trabalho.
As faixas no muro chamavam os jogadores de vagabundos. E, em plena 11 horas da manhã, esses trabalhadores uniformizados foram tirar satisfação com esses jogadores “vagabundos”, com um português digno de Olavo Bilac:
“tá tirando nóis?”
“Cês não joga bola!”
“Cês derrubara o técnico?”
Foram mais insultos ao plural e à gramática do que aos jogadores — que, por sua vez, estavam há nove jogos sem vencer.
O campo social é o ambiente em que esses torcedores estão inseridos — e que molda seu comportamento, fazendo-os agir, muitas vezes inconscientemente, de forma semelhante.
Há também o campo social dos advogados, que escrevem e falam da mesma maneira, com seus juridiquês — uma língua análoga ao português — e disputam prêmios simbólicos que só têm valor dentro do próprio campo.
Assim como brigar e demonstrar valentia só tem valor no campo das torcidas organizadas, ou no campo da maromba — que já analisei em outro texto — em que se exibe o corpo para si e para outros homens, criando uma narrativa interna de que aquela estética é bela.
Quando, na verdade, fora desse campo, o mundo vê o que é: um freak show.
Mas dentro desse campo, o prêmio pode ser um troféu do Arnold Classic ou, para os mais modestos, um print do teste de bioimpedância.
As crianças — como todos os seres humanos — funcionam por neuroplasticidade e neurônios-espelho.
Ou seja: aprendem observando.
E aprendem mais rápido porque o cérebro ainda é mais ingênuo do que o de um adulto.
Basta observar a facilidade com que aprendem um idioma novo, ou como a fase inicial da vida é a mais potente para aprendizado motor e cognitivo.
Agora, quer ver um verdadeiro prodígio?
É uma criança começar a comer salada do nada, numa família que só consome alimentos hiperindustrializados.
Isso non-ecxiste.
No lado diametralmente oposto dos torcedores organizados, temos o caso do meu sobrinho de 5 anos corrigindo minha mãe — também conhecida como avó dele.
Ao mostrar um livro infantil com torcedores organizados (acredito que do Corinthians), minha mãe disse que era um “ladrão”.
E ele a corrigiu:
“Ladrões, vovó.”
Porque sabia que eram mais de um.
Agora me diga: como pode um garoto de 5 anos, com leve autismo, falar plural melhor do que marmanjos que perguntam a jogadores se eles não são “sujeito homem”?
Em frente ao local de trabalho deles.
Enquanto sugerem que os vagabundos são os jogadores — e não eles próprios.
Eu respondo com essas imagens.


E olha que o menino ainda nem sabe ler.
E nem mesmo os pais, pela rotina, têm tanto tempo para leitura.
Mas o simples fato de ele estar inserido em um ambiente onde se fala corretamente já é suficiente para que ele não se comunique como um homem das cavernas.
E, sem brincadeira, a grande crítica que faço a algumas mulheres não é com quem elas se envolvem pela aparência —
mas pelo que sai da boca desses homens.
Como pode existir um relacionamento com alguém que fala como líder de torcida organizada e ainda se acha “sujeito homem”?
Vamos prestar atenção, mulher.
É aí que começa a surgir o feminicídio:
na falta de linguagem.