
O Brasil é o segundo país do mundo que mais passa tempo em redes sociais.
São nove horas diárias — fora o WhatsApp —, segundo dados recentes da revista Forbes.
Eu tenho um Instagram quase fantasma, que, sinceramente, se gasto 15 minutos diários é muito.
Porém, como explicar o fato de que estou sempre com o celular na mão?
O Recanto das Letras é uma boa explicação.
Mas boa parte dos textos que escrevo eu faço enquanto vejo vídeos no YouTube.
Não fica claro na informação se consideram o YouTube como rede social.
Se considerarem, esse número certamente aumentaria.
Porque, com certeza, isso inflacionaria meu consumo.
Sem contar que, enquanto caminho, muitas vezes também estou escutando YouTube.
Felizmente, tenho a versão premium e não preciso lidar com anúncios.
A gente tem a tendência de demonizar o uso do entretenimento como redes sociais atualmente.
Mas Madame Bovary, de Flaubert, já era um livro sobre isso.
Sobre como a leitura de romances fazia Emma se afastar da realidade —
imaginando mundos que se distanciavam do real.
Essa é, no fundo, a grande crítica de Platão à arte:
as sombras da caverna.
Enquanto o mundo das ideias — que o filósofo revela e o artista dissimula — seria o real.
Felizmente ou infelizmente, hoje, na pós-modernidade e na era do capitalismo artista,
as ideias — e o filósofo — perderam valor.
A suposta verdade foi substituída por:
subjetividade, percepção, algoritmo, lucro, resultado, sensação.
A diferença é que antes se lia Flaubert — ou se pensava.
Hoje se vê um reel de, no máximo, dois minutos.
O debate foi removido.
Substituído pela oposição entre like e dislike.
Ou, pior:
rolar infinitamente o feed, como um idiota,
aumentando os dados de consumo para pesquisadores internacionais
do brasileiro médio na internet.