O FUTURO DOS TEXTOS DO RECANTO DAS LETRAS

Temos dificuldade de descontar o fator tempo da existência.
Por exemplo:
Certamente, Lutero, ao publicar seus protestos em frente à Igreja Católica no século XV, não imaginava que fundaria, com isso, a modernidade.
Ou que um dentista, como era Tiradentes, na Inconfidência Mineira, viraria feriado.
Ou que Antônio Conselheiro seria estudado nos livros didáticos por Canudos.
Em outras palavras, como diz Nietzsche, alguns indivíduos — que ele chamou de extemporâneos — nascem póstumos.
Ele mesmo, em vida, não reconheceu o impacto que sua obra teria naquilo que hoje chamamos de pós-modernidade.
O mesmo vale para Van Gogh.
Ou Kafka.
O que estou querendo dizer é que, daqui a 10 ou 20 anos, alguém pode entrar no Recanto das Letras e, assim como hoje, passar horas lendo meus artigos culturais ou resenhas de filmes —
com pausas para rir com meus textos de humor.


E talvez, no futuro, funde algo como um sistema de pensamento daveliano —
organizando meus textos em estética e filosofia.
Como fizeram com o Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, que era uma série de anotações de Fernando Pessoa, simplesmente assinadas B.S.
Desde que Deleuze, em O Anti-Édipo, deslocou o homem de homo natura — que se relaciona com a natureza — para homo historia,
como alguém que identifica todos os nomes da história através dos estados energéticos que esses nomes o afetam,
alguém pode, diante de um texto nosso, daqui a 20 ou 30 anos, se identificar e dizer:
“Então sou eu.”
E isso "produz algo que eu produzo."
Até onde sabemos, a única maneira de sermos imortais é deixarmos para a posteridade algo que ficará além de nós.
Uma página no Recanto pode ser um bom começo.
Meu texto mais lido, que hoje tem pouco mais de 1.000 leituras, quem sabe daqui a 1.000 anos tenha um milhão.
Ou quem sabe não vá fundar também um novo calendário regular.
Certo é:
se o pensamento ficar enclausurado em você, ele morrerá junto contigo.