A FELCATIZAÇÃO DA INTERNET

O fenômeno Felca todos conhecemos.
Um adolescente idiota, de Santa Catarina — sempre eles — criado a leite com pera e videogame, cujo sonho já não é trabalhar, mas ser youtuber e famoso.
Quem vê seus primeiros vídeos nota que ele não mediu esforços para isso.
O sucesso veio com o vídeo em que ele experimenta a base da Virginia.
E, mais recentemente — e mais exponencialmente — no caso da adultização, que, por via indireta, virou até projeto de lei para proteção de menores na internet.
É engraçado como diz Nietzsche que a essência do homem é a vontade de potência.
O Roda Viva, que antes entrevistou alguns dos maiores intelectos que esta nação e o mundo já produziram — como o autor de Sapiens, Yuval Harari —, no último programa recebeu Felca.
Felca, finalmente, chegou lá.
E denunciando algo que era dever das autoridades — porém que mexe com o interesse de muita gente.
Assim como eram os casamentos arranjados com menores — que, ainda hoje, continuam sendo explorados.
Mas a adultização é, de certa forma, irônica.
É efeito da própria felcatização.
Pois as crianças e adolescentes, desde muito cedo, já fazem parte dessa lógica constante de exibição — da qual o próprio Felca faz parte.
Fazem de tudo para aparecer em troca de likes.
Medem felicidade por métricas e algoritmos.
E, nesse ambiente, surgem predadores online que se aproveitam disso.
Há, claro, o crescimento orgânico nas redes.
Mas será que ele é tão orgânico assim?
O capital cultural necessário para estar na vanguarda da internet — desde os primórdios — não é distribuído igualmente.
Um BRKsEDU, um Leon, um Funky — você pode não saber os nomes, mas eles têm algo em comum:
foram pioneiros.
E todos começaram morando fora do Brasil.
Ou seja: são herdeiros do capital cultural — como diria Bourdieu — necessário para saber como imigrar, como produzir, como operar.
O Funky, por exemplo, foi para Dublin.
Usando seus conhecimentos de fotógrafo para produzir vídeos.
Sabendo usar as ferramentas do YouTube, captura de tela, edição.
Ou seja: para ser pioneiro, sempre houve conhecimento prévio — herdado.
Eu mesmo fui um dos primeiros a entrar no YouTube, antes de ele ser comprado pelo Google, em 2006 — por influência do meu irmão, que me apresentou.
Mas não tinha computador em casa.
Usava o computador do CEU (Idealizado pela melhor prefeita da história de São Paulo, Marta Suplicy, criadora do Bilhete Único. Sua única criação que deu errado foi o Supla mesmo.) já que o meu tinha sido roubado em 1999.
Na época, havia vídeos compilados, como “soccer violence”, ou músicas — e todo mundo ficava impressionado.
Se naquela época eu tivesse computador e equipamento…
Quando apareceram PC Siqueira — ou melhor, esquece, não foi um bom exemplo —, Felipe Neto…
Se eu também tivesse criado um vlog, talvez fosse milionário.
Se… se… se…
Há o capital cultural.
Há a oportunidade.
Mas há também o custo.
Vale lembrar: PC Siqueira está morto.
Enquanto Monark, criador do Flow, quase teve o mesmo destino por causa do cancelamento.
A felcatização atual gera muitas oportunidades ao mesmo tempo que é cruel.