COMO FAZ FALTA RICARDO BOECHAT.

A NOTÍCIA
Ele morreu, advertidamente, ao cair de um helicóptero.
Estava eu e meu irmão em casa, assistindo ao lendário programa esportivo Fox Sports Rádio, quando Benjamin Back interrompe e diz: “cara, parece que o Ricardo Boechat morreu”.
Logo em seguida, confirmou.
E o programa passou a ser uma ode à carreira brilhante dele.
Eu o escutava toda manhã ao ir para o trabalho.
Ele entrava no ar às 7 horas.
O programa começava bem quando eu ficava parado no trânsito da Marginal.
Eu trabalhava ali em frente ao antigo Extra (Hoje, Açai), do lado da Domingos de Morais — meu primeiro emprego, numa multinacional, aos 16 anos de idade.
Uma empresa de vidro vermelho e preto: horrível, mas imponente.
Eu era como sou hoje: destacavam a elegância com que eu ia trabalhar.
Mesmo sendo menor de idade, as mulheres flertavam descaradamente comigo, e alguns diziam que eu seria presidente um dia.
Aparências — como vocês devem imaginar, não me tornei nada disso.
O que pode parecer uma digressão sobre aquilo que não foi — oportunidades desperdiçadas — não o é.
Porque a morte de Boechat foi um desperdício para o país.
Sempre me pergunto com o meu irmão:
imagina o que Boechat estaria falando sobre Bolsonaro, a tentativa de golpe de Estado, sua prisão, o escândalo da Master, as guerras de Trump.
No início de todo programa, ele gastava uns 30 minutos em um monólogo de improviso — que era sempre brilhante.
Talvez só Reinaldo Azevedo tenha capacidade semelhante atualmente na mídia.
Naquela época, a Bandeirantes era a Bandeirantes.
Hoje você liga no horário e virou informação sensacionalista — sem informação.
Sob o comando de Sheila Magalhães, que, apesar de bela, e igualmente voluptuosa Carla Bigatto, e Luís Megale — para equilibrar a beleza delas com a feiura dele —, mas era bom repórter; apresentador, apenas mediano.
Antes, a Bandeirantes contava ainda com O Pulo do Gato, pelo menos aqui em São Paulo, e o Primeira Hora, apresentado pelo saudoso e brilhante José Paulo de Andrade, ao lado de Salomão Esper — que não sei se ainda está vivo —, e o promissor à época Rafael Colombo, que, por decisões ruins, está hoje quase em ostracismo.
Hoje, a TV da Bandeirantes, que Boechat apresentava no principal jornal, ainda é presidida pelo brilhante Fernando Mitre.
E hoje um dos melhores analistas políticos, além de intelectual, é o Fernando Schüler.
O resto da grade é totalmente dispensável.
Reinaldo Azevedo e Boechat, que tinham uma rivalidade, fizeram as pazes assim que Reinaldo saiu da Jovem Pan — o lado negro da força — e foi para a força do bem.
E coexistiram no período de ouro da rádio.
Assim como Reinaldo fez as pazes com o professor Villa, que era lavajatista, viu como estava equivocado, pediu desculpas ao Reinaldo e o elogiou — porque ele foi o primeiro na mídia a apontar os desmandos desse projeto de poder da República de Curitiba, com Sérgio Moro e Deltan Dallagnol.
Ou seja, Villa também passou para o lado do bem — que é a democracia.
A mesma que Boechat tanto defendeu.
E que, se estivesse vivo, estaria hoje desgostoso — e brilhante — a defendendo.