
E talvez o incômodo esteja justamente aí: não é que o Brasil perdeu no campo; é que já vinha perdendo fora dele há muito tempo.
A novidade é que, apesar dos cinco títulos mundiais, já há uns 20 anos o Brasil não é a melhor seleção de futebol.
No cinema, na literatura, na filosofia — na cultura em geral — a superioridade da França sobre o Brasil é abissal.
Na Quinta-feira, parecia que entrou em campo a nouvelle vague contra o cinema novo — que, em certos momentos, soa como uma nouvelle vague da Shopee.
Para entender como a França nos superou no futebol, é preciso recorrer ao cinema.
Entre os Muros da Escola, vencedor da Palma de Ouro, dirigido por Laurent Cantet , é um bom ponto de partida.
Tive a oportunidade de conhecê-lo na Reserva Cultural, quando lançou De Volta a Ítaca.
O filme é uma ficção com estrutura de documentário: atores amadores em seu ambiente corriqueiro, baseado no livro do próprio professor, que ele mesmo interpreta no filme, na periferia de Paris, tentando ensinar jovens franceses pobres — muito distante do glamour que costumamos associar à França.
É ali que a seleção francesa começa.
Ali está o seu sucesso: o imigrante, o negro, o muçulmano, o africano.
Francês “mesmo”, talvez só o técnico Didier Deschamps.
A França é um dos países mais preconceituosos — mas, no futebol, bate no peito para reivindicar seus imigrantes.
Arrumou uma função para o negro através do esporte.
Se dependesse apenas de jogadores franceses “puros”, talvez o Brasil tivesse alguma chance.
Mas não é essa a França que entra em campo.
Entra a França real — contraditória, provinciana, estruturada.
E contra ela, o Brasil não teve a menor chance.